22 Jul Quando “Seja Vegetariano” é a Mensagem Certa

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Por Virginia Messina (dietista, co-autora dos livros Vegan for Life, Vegan for Her, Never Too Late to Go Vegan, entre outros)

Nos últimos tempos tenho mergulhado num dos meus livros favoritos, Simple Food For The Good Life, de Helen Nearing. A autora e o seu marido Scott eram pacifistas e pioneiros de um estilo de vida simples nas décadas de 1930 a 1970. Eram vegetarianos – quase veganos.

Gosto muito deste livro de receitas, não tanto pelas receitas em si, mas mais pelas passagens divertidas ao longo da obra, bem como algumas ideias assinalavelmente radicais (para 1980) acerca dos direitos dos animais. Mas considerem-se desde já avisados: os pensamentos da Helen não estavam alinhados com algumas das posições absolutistas que alguns activistas hoje adoptam. Era uma comunicadora bastante directa e não poupava nas palavras ao referir o seu desdém por perspectivas rígidas.

No seu capítulo sobre o vegetarianismo, escreve:

“Conhecemos um vegetariano dogmático e arrogante que, recebendo-nos para jantar, relegou de forma rude e desonrosa a sua esposa e filha, ambas ainda consumidoras de carne, para jantarem na cozinha, enquanto nós éramos servidos com o nosso anfitrião na sala de jantar. Este purista implacável tinha muito para aprender acerca de um modo mais correcto de viver, ainda que estivesse a caminhar para uma dieta correcta.”

Assisti a um conjunto de acontecimentos esta semana que me fizeram questionar o que a Helen pensaria acerca de algumas das actuais controvérsias no movimento dos direitos dos animais. O primeiro foi um novo outdoor fundado pela Mercy For Animals. Encontra-se numa auto-estrada em Michigan, onde é visto diariamente por mais de 50,000 condutores. Com uma fotografia de um cachorrinho adorável e um porco bebé ainda mais adorável, o cartaz pergunta “Porquê cuidar de um e comer o outro?” e avança com a frase “Seja Vegetariano”.

Para mim, é um brilhante exemplo de activismo. Mas algumas pessoas queixaram-se de que era educação vegetariana, em oposição a educação vegana. Bem, talvez seja. Mas o que fazer num contexto em que as pessoas estão a conduzir na auto-estrada e o objectivo é falar-lhes acerca da produção intensiva de animais? Se formos inteligentes, criamos uma mensagem que apresente um argumento rápido seguido de uma frase forte e imediatamente lógica

O outdoor da Mercy for Animals fez precisamente isto. Eles são um grupo pro-veganismo, mas sabem que não é fácil tornar o argumento para o veganismo imediato numa imagem simples e em poucas palavras. Assim, ao invés de não fazerem nada, fizeram algo que efectivamente pode levar a que as pessoas – muitas pessoas – pensem acerca da origem da sua comida.

No início desta semana também ouvi objecções a um excerto do Animal Activist’s Handbook que apareceu no website da United Poultry Concerns. Os autores Matt Ball e Bruce Friedrich falavam sobre o mito da produção de carne sem sofrimento [“Humane Meat”], afirmando:

“Se insistimos que temos mesmo de consumir a carne de um animal em vez de uma opção vegetariana, é no mínimo ingénuo acreditar que um sistema para o qual nós pagamos para abater animais vai tratar bem deles.”

Isto provocou algumas críticas, novamente devido ao uso da palavra “vegetariana”. Penso que quem faz estas críticas simplesmente não compreendeu o ponto essencial da mensagem. Se as pessoas fizeram um compromisso para comer apenas carne produzida sem sofrimento, faz sentido desconstruir o mito da “carne sem sofrimento” e abordar as razões pelas quais deviam efectivamente abdicar do consumo de carne. Esta mensagem tem uma relevância imediata para a respectiva situação e abre as portas à perspectiva de troca adicional de ideias.

Algumas pessoas diriam que devemos falar apenas sobre veganismo e filosofia dos direitos dos animais. A minha própria experiência, com base em anos de aconselhamento dietético e educação de estilos de vida, diz-me que este tipo de abordagem é absolutamente errada. Mas enviei um e-mail a uma amiga para sujeitar esta ideia à prova dos factos. Ela é psicóloga educacional, com experiência quer académica quer aplicada no seu campo; é também vegana e a favor dos direitos dos animais. Na sua longa resposta às minhas perguntas explicou a futilidade das posições estreitas e rígidas, e acabou com esta frase:

“É simplesmente idiota pensar que podes abordar este assunto com absolutismo. Tentar atingir um ponto de chegada através de uma recusa categórica em considerar algo a não ser a tua própria posição absolutista (ainda que moralmente certa), simplesmente não vai conseguir abrir as ‘portas mentais’ necessárias para dar início a uma mudança de valores.”

De nenhuma forma isto significa que não devemos falar sobre veganismo. E certamente não se trata de promover o vegetarianismo como uma “entrada” para o veganismo. De facto, encontramos muito frequentemente oportunidades para falar sobre o estilo de vida vegano, ou pelo menos plantar uma pequena semente. Procuro sempre essas oportunidades. Mas também sei que por vezes é mais adequado, e faz mais sentido, e é mais eficaz usar a palavra “vegetariano” de forma a captar a atenção das pessoas. Se perdermos essas oportunidades – quer por as ignorarmos quer por usarmos a linguagem menos adequada – perdemos uma oportunidade de fazer a diferença pelos animais.

Artigo traduzido com a permissão da autora.
Original: http://www.theveganrd.com/2009/08/when-%e2%80%9cgo-vegetarian%e2%80%9d-is-the-right-message.html


Sem comentários
  • Brian Caravalho
    Criado às 12:00h, 24 Fevereiro Responder

    Caramba, realmente faz a diferença…
    mas depende de onde foi usada, pq na china o pessoal come cachorro, né?

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