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Porque motivo se tornou Vegetariano/a?:

Artigos de Opinião

ARTIGOS DE OPINIÃO

O VERDADEIRO MUNDO DOS VEGETARIANOS

Paralelamente ao facto do consumo de carne a nível mundial não parar de crescer, há também felizmente um número cada vez mais significativo de pessoas que optam por um regime alimentar vegetariano. Felizmente, dizia eu, e por inúmeras razões. Inúmeras razões, pois, infelizmente, a questão não é tão simples e linear assim como à primeira vista possa parecer. Não!, não se deixa de comer carne somente por razões de saúde ou de compaixão para com os animais, ainda que estas sejam razões de peso, e a face por assim dizer mais visível da temática.
O assunto dá pano para mangas, conto apenas com este meu depoimento contribuir para um possível alargamento do campo de visão daqueles que – porventura menos atentos ou mais distraídos – ignoram a verdadeira dimensão do que está por detrás da questão.

Sem dúvida alguma que as razões de saúde e de compaixão encabeçam a lista das razões que levam as pessoas a abandonar o consumo de animais. É isto, aliás, que costumam os vegetarianos responder quando questionados acerca dos motivos da sua tomada de decisão. Questão aliás muito sem razão de ser, deveria ser desnecessária, infelizmente não o é... E, a menos que sejamos cegos, estúpidos ou irracionais, convenhamos que são motivos mais que válidos e plenos de sentido. Está provado e mais que provado que o consumo excessivo de carne é prejudicial à saúde humana. São os relatórios da própria Organização Mundial de Saúde (O.M.S.) que fazem apelo a uma drástica redução do consumo de gorduras animais. O consumo de carne é responsável, nuns casos, pelo surgimento ou propiciar de doenças como as do foro cardíaco, circulatório e metabólico, diversos tipos de cancro (estômago, esófago, intestinos...), diabetes, reumatismo, artrites, alergias, Creutzfelldt-Jakobs, e, noutros, pelo agravar de muitas outras entre as quais se encontram a gota e o ácido úrico. Só por isto, temos já motivos de sobra para abandonar o consumo de tão malfadado alimento! A estes dados há que acrescentar ainda que a alimentação à base de vegetais e seus similares, desde que equilibrada, não é de modo algum uma porta aberta a sintomas de carências, pois que nada há que a carne contenha – nomeadamente proteínas, vitaminas ou minerais – que não seja possível encontrar também num regime alimentar como é o vegetariano. O difícil mesmo parece ser, até, o que comer, tal o variadíssimo leque de opções a nível gastronómico que nos oferece semelhante dieta. E abro aqui um parêntesis para frisar o ridículo da questão muitas vezes colocada aos vegetarianos relativamente ao que comem... Não, não comem só alface, nem tão pouco passam fome! Cabe-me aqui perguntar também aos “carnívoros” se tudo o que comem é carne e alface! Tão ridícula é uma questão como outra.

Depois... que diabo, deixemo-nos de preconceitos fúteis e machões, e não recriminemos os vegetarianos rotulando-os quantas e quantas vezes de maricas, sentimentalistas e impressionáveis... Sensíveis é tudo quanto se lhes pode apontar, mas se isso é defeito... Porque, sejamos realistas e encaremos os factos como eles são: quantos de nós deixaríamos de ter a consciência tranquila se de cada vez que mastigamos carne pensássemos nos biliões de gestos que idêntica e simultaneamente se repetem pelo mundo? Porque a grande maioria come carne, todos os dias milhões e milhões de animais têm de ser abatidos... Não seria óptimo se, em vez de nos reservarmos a uma cega apatia, indiferença, e a um comodismo grassante, pensássemos ao menos no indizível sofrimento por que passam os animais e os pudéssemos poupar a tal...? É que não apenas no momento da morte sofrem os animais de que a maioria de nós se alimenta, não, o sofrimento é desde o nascimento, eu diria mesmo que o sofrimento começa pela privação de “contacto social”, muitos animais, como as vacas, por exemplo, são muitas vezes inseminados artificialmente, e criados sem nunca terem acesso a ver a luz do dia. Com os porcos acontece o mesmo, são mantidos em pequeníssimos recintos onde mal se podem mexer, para que assim mais facilmente engordem, e mais rapidamente se ganhe dinheiro com eles. Outros, como as aves, são criados em verdadeiros aviários – expressão que identifica autênticos aglomerados –, onde não têm espaço sequer para abrir as asas, e onde tudo o que se lhes permite é comer e pôr ovos.

O transporte dos animais vivos para o local de abate é também bárbaro e doloroso, angustiante, causador de stress, e absolutamente dispensável: muitos são os que não resistem, morrendo sufocados, de fome e de sede, ou muito simplesmente por não resistirem às dores provocadas pelas feridas e ossos partidos... O abate, esse, dispensa comentários... o sofrimento não tem explicação, e só alguém muito insensível pode ficar indiferente ou de consciência tranquila.

E o mais curioso é que o Homem não é sequer verdadeiramente carnívoro!: a começar pelo facto de a maioria de nós não matar os animais de que se alimenta – na verdade, se muitos de nós o tivéssemos de fazer não seríamos capazes –, passando pelo facto da nossa estrutura fisiológica em nada se assemelhar à dos animais carnívoros, e, finalmente, frizar o facto de não consumirmos a carne crua, como fazem os carnívoros.

Mas o problema não se fica por aqui. Na verdade, só agora vai começar...
Uma vez que a carne é prejudicial à saúde, que os animais sofrem, que o Homem não é de facto carnívoro, e que passa muito bem sem carne, confrontamo-nos de imediato com questões de ordem ética: porquê consumirmos carne?
Ao passo que algumas tribos, culturas e religiões preconizam a abstenção cárnea, todos nós sabemos que em muitas outras partes do mundo se consomem verdadeiros manjares e iguarias confeccionados com carne de animais como o cão, golfinho, baleia, macaco, crocodilo, canguru, elefante, tartaruga, entre uma lista infindável de muitos outros. Se bem que acredite que muitos dos nossos carnívoros possam sentir uma qualquer repulsa ante a perspectiva de consumir (ou ter consumido sem o saber) uma qualquer das espécies enunciadas, na verdade custa ligeiramente a perceber porquê!: não é afinal um cão ou um golfinho, uma baleia ou um elefante um animal como outro qualquer? Porquê sentir repulsa só de pensar em comer animais como estes e não o sentir em relação a outros? Não serão todos eles animais?, não terão todos eles o mesmo direito à existência... ? Não será uma vaca ou um porco ou um coelho, um animal como uma baleia ou um golfinho ou um macaco?... Porquê censurar quem consome tais animais, não tendo nós autoridade moral para tanto? Não seremos iguais?, ou piores, talvez... ? Na verdade, quem consome carne de porco ou vaca é bem capaz de comer carne de outro qualquer animal. Eu arriscaria mesmo dizer que até da sua própria espécie... E os dados falam inclusivamente por si: com a crise das vacas loucas abriu-se o mercado a novas carnes, como a de avestruz e canguru, e o seu consumo não tem parado de subir em flecha...

Poderá o Homem, enquanto animal pensante, e supostamente sensato, arrogar-se o direito de explorar e exterminar outros animais a seu belo prazer?... A verdade é que, nomeadamente de acordo com a moral da Igreja Católica, pode: os animais existem para que o Homem deles se sirva e tire proveito. Frases bíblicas como “crescei e multiplicai-vos, dominai”, e por aí fora, foram e são levadas à letra. Que outra religião mais se disseminou senão a cristã? Que outra mais contribuíu e tem contribuído para a exploração e extinção de animais senão a cristã? (directa e indirectamente). E é ver que temos aí o sacrifício de milhões e milhões de animais aquando da celebração das suas festas, como o Natal e a Páscoa, a vil e bárbara matança do porco, as touradas, tudo pela Igreja apoiado.

Mas ainda isto não é nada, e o verdadeiro problema relacionado com o consumo de carne prende-se com questões ecológicas. Questões que estão na ordem do dia, questões que têm sido badaladas, questões que paulatinamente têm vindo a entrar nas nossas cabeças. Será que têm mesmo?... A par com uma progressiva e talvez efectiva tomada de consciência, assistimos absortos às maiores contradições.
Sabe-se que a agricultura tem sido desde sempre responsável pela desflorestação: todos os anos, milhões de hectares de floresta têm de ser desocupados e convertidos em terrenos agrícolas, com vista a fazer face a uma crescente procura de alimentos por parte de uma população que aumenta em média a um ritmo de 100 milhões de almas/ano. Tal destruição de florestas é particularmente verdadeira e assustadora nos chamados países do 3º Mundo, localizados sobretudo no hemisfério sul.

Diz-se até – sarcasticamente –, que os vegetarianos são responsáveis pela destruição da camada verde – tanto florestal como agrícola! – e que assim contribuem para a rarefacção do oxigénio. Nada disto é tão curial assim. De facto, também os carnívoros consomem vegetais, e mais: a carne dos animais que consomem é alimentada com vegetais, forragens e cereais. E é aqui, precisamente, que se situa a raíz do mal: a energia que obtemos ao comer carne só parcialmente nos é devolvida, uma vez que por cada caloria de carne bovina consumida há que proporcionar dez de cereal ao animal. Significa isto, nada mais nada menos, que o gado consome dez vezes mais cereal que os humanos, e que estamos a alimentar gado quando poderíamos alimentar pessoas. Gado esse que servirá de alimento aos carnívoros, mas que é as mais das vezes consumido fora das fronteiras onde é criado: países como os da América Latina, África e Sudeste Asiático, têm vindo a aumentar as suas exportações de carne (sobretudo de vaca, a mais rentável), ao passo que nesses mesmos países o consumo desta per capita tem vindo a descer e se morre de fome. Paralelamente, em locais onde antes se praticava uma agricultura de subsistência e métodos de produção assentes na rotação e diversidade de culturas, deparamos agora com vastas áreas dedicadas a uma só e monótona cultura. Tais práticas conduzem a um excessivo desgaste dos solos, à perda da sua fertilidade e superfície arável, à erosão, e a uma maior exposição às pragas e consequente recurso à utilização de pesticidas.

Há muito, já, que a produção de cereais a nível mundial registou o seu pico, tendo vindo desde então constantemente a declinar. A par com este fenómeno, no entanto, a produção de carne tem vindo incessantemente a aumentar, a fim de satisfazer a cada vez mais voraz procura por parte das cadeias de fast food. No entanto, 100 acres de terra produzem carne para 20 pessoas, mas cereal suficiente para alimentar 240, pelo que a produção de carne é responsável por uma maior procura de solo arável e consequente destruição de floresta, o que implica necessariamente a extinção cada vez mais acentuada e em massa de inúmeras espécies animais e vegetais, sobretudo nos trópicos, e a deslocação e desintegração de povos indígenas.

Ao mesmo tempo, mais população significa ter de criar mais espaços para alojamentos nas cidades, mais fábricas, escritórios, vias de comunicação e infra-estruturas, e tais espaços são criados em cima de outrora férteis terrenos. Mais população significa também mais poluição, mais conflitos, drogas, crimes, etc... Significa também uma maior procura de alimentos, maior procura e consumo de carne no rico norte, mais fome e doenças no pobre sul.

A prioridade é, pois, produzir alimentos para uma população em crescendo contínuo, quando na verdade a prioridade deveria ser outra: controlar a produção de carne, e, sobretudo, controlar as taxas de natalidade. Porque controlar somente a produção de carne não chega: controlando a produção de carne, poderíamos alimentar a população humana com os cereais que antes destinávamos ao gado, ou cultivar estes nas pastagens onde antes crescia a forragem para o gado, mas tal inevitavelmente levaria a sérias consequências: se, por um lado, numa fase inicial do (utópico) processo haveria uma drástica redução da fome – talvez mesmo a sua erradicação –, posteriormente depressa essa população aumentaria mais ainda e acabaria por não ter espaço nem para se alojar nem tão pouco para produzir os seus alimentos... É necessária, pois, e saudável, a competição por alimentos entre animais e pessoas. O primeiro milho é sempre dos pardais: na China, onde houve campanhas no sentido de se exterminarem tais aves, conseguiram-se números recordes de produção cerealífera. Consequentemente, a população humana disparou e sobreveio depois a fome.
Também a produção de carne é responsável, em grande parte, pelas alterações climáticas e pela redução dos stocks piscícolas: as áreas destinadas à criação de gado, ou são obtidas à custa do derrube ou da queima das árvores. Em ambos os casos a produção de oxigénio fica ameaçada, e, sobretudo neste último caso, contribui-se enormemente para o efeito de estufa. Grande parte do gado – quando não forçado ao canibalismo... – é também alimentado à base de farinhas de peixe e outros animais marinhos, como golfinhos, por exemplo.
Ao consumirmos carne atentamos contra a nossa saúde, contribuímos para a exploração dos animais, para a destruição do planeta, para o aumento da fome mundial e da poluição, para o exaurimento dos bancos de peixe, para a falta de água, para o agudizar do problema das chuvas ácidas, entre outros problemas.

A médio prazo, a sobrevivência do Homem e o das próprias espécies animais de que este habitualmente se alimenta (para não falar das outras) está ameaçada. A manter-se – e possivelmente a aumentar-se – o presente nível de consumo de carne à escala mundial – e este ritmo de crescimento demográfico –, só um cenário é possível: enquanto houver florestas para queimar e derrubar, para dar lugar a pastagens e novas cidades, a produção de carne manter-se-à em alta, enquanto a fome aumentará na respectiva proporcionalidade; quando os espaços cultiváveis não puderem expandir-se mais e a fertilidade dos existentes diminuir de forma irreversível, por essa altura a população humana terá atingido números de tal modo esmagadores que acabará por não permitir-se partilhar os seus alimentos com o gado. Não poderá haver desperdício de calorias. Num esforço inglório, depois de devorados todos os animais, lançará às últimas terras disponíveis as últimas sementes. Pouco depois, passará a comer o grão antes mesmo de o lançar à terra. A fome será inevitável... Passaremos a comer-nos uns aos outros...

Rui Fidalgo
Associação Vegetariana Portuguesa - 1999

“Os animais são meus amigos, e eu não como os meus amigos” - George Bernard Shaw

Contador de vidas

Contador de vidas perdidas
Mais de 56 biliões por ano

Número de animais mortos no mundo pela indústria da carne, dos ovos e do leite, desde que você abriu esta página.

Esta contagem não inclui a morte de vários biliões de peixes e outros animais aquáticos, cuja dimensão de tão grande, nem se consegue medir. Suspeita-se que o total de todo o género de animais mortos anualmente em todo o mundo, na realidade possa ser superior a 200 biliões. Este contador é baseado nas * estatísticas de 2007 * do * Atlas da Produção Pecuária Global * da Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) das Nações Unidas.

 
Por uma alimentação mais saudável, natural, ética, ecológica, sustentável e humanitária.