06 Jan Jornal I publica artigo que não tem validade científica

 

Um artigo publicado a 4 de Janeiro de 2017 pelo Jornal i, intitulado “Comer carne pode ser mais saudável que ser vegetariano” rapidamente se disseminou nas redes sociais e tornou-se viral. A AVP, cumprindo o seu sentido de dever de informar o público,  alerta para o facto de este artigo ser uma deturpação da verdade e ciência da nutrição, que deve ser endereçada.
Em primeiro lugar, é questionável ver que este artigo é publicado precisamente um dia antes do debate parlamentar sobre a inclusão obrigatória de uma opção vegetariana em todas as cantinas públicas do país, inoportunamente ostentado como uma notícia recente,  embora o estudo date de 2014.Em segundo lugar, o ionline não menciona o estudo de forma direta, mas cita um artigo do jornal Britânico The Independenthttp://www.independent.co.uk/news/science/vegetarians-are-less-healthy-and-have-a-lower-quality-of-life-than-meat-eaters-scientists-say-9236340.html – o que nos leva também a questionar a qualidade do jornalismo em prática.Em termos da ciência, o artigo estabelece que “apesar de os vegetarianos terem uma vida mais ativa, fumarem menos e consumirem menos álcool, o facto de consumirem apenas frutas, legumes e alimentos integrais faz com que haja uma carência de gorduras saturadas e colesterol”. Não se percebe esta afirmação visto que a gordura saturada e colesterol não são nutrientes essenciais para a saúde humana, pois o corpo consegue produzir as quantidades necessárias1,2.Cada vez mais, existe um consenso científico que se deve minimizar o consumo da gordura saturada e colesterol alimentar para evitar problemas de saúde1–4, pelo que a afirmação se revela mais paradoxalA saber, a substituição de apenas 5% da energia proveniente da gordura saturada na nossa alimentação com quantidades equivalentes de gorduras poli ou monoinsaturadas reduz pode reduzir o risco de doenças cardiovasculares em 25% nos homens e 15% nas mulheres5. Consequentemente, a carência de gorduras saturadas é precisamente uma das grandes vantagens numa alimentação de base vegetal6.Antes de proceder à analise critica do estudo, queríamos lembrar que em 2014, o National Health Service (NHS) do Reino Unido tinha lançado um artigo oficial precisamente a apontar as várias falhas sobre o estudo em questão e a descredibilizar as suas conclusões:
http://www.nhs.uk/news/2014/04April/Pages/Vegetarians-have-poorer-quality-of-life-study-claims.aspxO estudo mencionado pelo Jornal i pode ser acedido aqui:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24516625Após analise detalhada do estudo, a AVP gostaria de esclarecer os seguintes pontos:

  1. Este é um estudo transversal que foi publicado no jornal PlosOne em 2014 no qual os investigadores apenas efetuaram um questionário a um grupo de 330 pessoas “vegetarianas” (embora nesta categoria não incluíam apenas vegetarianos) e três grupos “carnívoros” – classificados de acordo com o consumo de carne. Estes grupos foram comparados de acordo com vários parâmetros de saúde e estilo de vida e após a observação, os autores concluíram que “uma alimentação vegetariana está associada com piores índices de saúde (maior risco de cancro, alergias e doenças mentais), uma necessidade maior de cuidados de saúde e uma pior qualidade de vida
  2. O estudo transversal pode encontrar associações entre duas variáveis, mas não consegue estabelecer uma causa-efeito e ainda para mais, apenas analisa um ponto em especifico baseado (neste caso, através de um simples questionário). Ou seja, não se consegue estabelecer o tempo que uma pessoa segue uma alimentação vegetariana e isto é um fator muito importante, porque as pessoas muitas vezes se tornam vegetarianas após serem diagnosticadas com certa doença. De modo que, esta associação poderá não ter haver com a alimentação de todo.
  3. As pessoas pensam que uma alimentação vegetariana é mais saudável e por isso poderão ter reportado que seguem este tipo de alimentação no questionário, mesmo não sendo vegetarianos ou terem uma ideia clara de que significa ser vegetariano – não existiu qualquer preocupação para confirmar a alimentação destes indivíduos. Além disso, a separação do grupo “vegetariano” é bastante ambígua, porque as pessoas que são pesco-vegetarianas, lacto-ovo-vegetarianas e veganas estavam todas na mesma categoria. O facto de dividirem os “não-vegetarianos”” em 3 grupos diferentes oferece melhor perspetiva do que apenas um grupode “não-vegetarianos”,, devendo o mesmo critério ter sido aplicado aos “vegetarianos”.
  4. Os parâmetros de saúde e estilo de vida não foram avaliados de forma precisa porque não existiu nenhuma confirmação médica se os participantes do estudo realmente tinham ou não tinham as doenças que reportavam. Neste contexto, mais nenhum detalhe poderia ser fornecido (ex.: se a pessoa tinha a doença há muito tempo, a severidade, se estava a ser tratada, que tipo de alimentação seguia anteriormente, etc.)
  5. 330 vegetarianos é uma amostra muito pequena para se obter conclusões sobre uma população inteira. Se existissem mais 330 pessoas, as conclusões poderiam ser diferentes. É importante ainda ter em conta que a amostra é constituída apenas de Austríacos, e não contempla indivíduos de outras culturas e países, pelo que não é representativo.
  6. Paul Appleby, um perito em estatística responsável pela analise dos dados da coorte EPIC-Oxford, apontou que é possível que neste estudo em concreto, o “grupo vegetariano” poderia estar a ser comparado com os grupos de  “não-vegetarianos”“mais jovens e isto poderia completamente adulterar os resultados.
  7. Levanta dúvidas que os mesmos autores deste estudo não tenham mencionado na discussão que no primeiro estudo que efetuaram, concluíram o oposto. No estudo anterior, tinham determinado que “uma alimentação vegetariana está associada a melhores índices relacionados com a saúde, comportamento, Índice de Massa Gorda (IMC) e classe socioeconómica mais alta”7.
  8. Mesmo assumindo que estas conclusões são verdadeiras um único estudo não oferece resposta a uma questão complexa como a influência da alimentação na nossa saúde.

Tendo estes fatores em conta, a escolha de um estudo publicado em 2014 pelo Jornal i revela uma intenção clara: não existem estudos sólidos que invalidem a opção vegetariana e por isso esta publicação cientifica, emborametodologicamente fraca, é selecionado deliberadamente como o único ponto de campanha para a favor do consumo de carne.

Concluindo, a AVP não entende como os media podem ignorar uma grande quantidade de literatura cientifica que demonstra que os vegetarianos e veganos têm um menor risco de desenvolver várias doenças crónicas que afetam a sociedade Portuguesa como o enfarte agudo do miocárdio, diabetes tipo 2, hipertensão, certos tipos de cancro e obesidade6,8,9. O mesmo foi concluído pela Direção-Geral de Saúde10. Por outro lado, também não se percebe porque é que os media não dão a mesma atenção quando se publicam semanalmente artigos científicos a demonstrar os grandes benefícios de seguir uma alimentação vegetariana, nos quais se inclui a mais recente posição do Academy of Nutrition and Dietetics de 20166.

Darchite Kantelal, MSc, RD
Nutricionista Registado (Cédula: 2966N)

Bibliografia
1.        Medicine I of. Dietary Reference Intakes for Energy, Carbohydrate, Fiber, Fat, Fatty Acids, Cholesterol, Protein, and Amino Acids (Macronutrients). Washington, D.C.: National Academies Press; 2005. doi:10.17226/10490.
2.        EFSA Panel on Dietetic Products Nutrition and Allergies (NDA). Scientific opinion on dietary reference values for fats, including saturated fatty acids, polyunsaturated fatty acids, monounsaturated fatty acids, trans fatty acids, and cholesterol. Efsa J. 2010;8(3):1461. doi:10.2903/j.efsa.2010.1461.
3.        Williams KA, Krause AJ, Shearer S, Devries S. The 2015 Dietary Guidelines Advisory Committee Report Concerning Dietary Cholesterol. Am J Cardiol. 2015;116(9):1479-1480. doi:10.1016/j.amjcard.2015.07.077.
4.        Trumbo PR, Shimakawa T. Tolerable upper intake levels for trans fat, saturated fat, and cholesterol. Nutr Rev. 2011;69(5):270-278. doi:10.1111/j.1753-4887.2011.00389.x.
5.        Hruby A, Hu FB. Saturated fat and heart disease: The latest evidence. Lipid Technol. 2016;28(1):7-12. doi:10.1002/lite.201600001.
6.        Melina V, Craig W, Levin S. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Vegetarian Diets. Vol 116.; 2016. doi:10.1016/j.jand.2016.09.025.
7.        Burkert NT, Freidl W, Großschädel F, Muckenhuber J, Stronegger WJ, Rásky É. Nutrition and health: different forms of diet and their relationship with various health parameters among Austrian adults. Wien Klin Wochenschr. 2014;126(3-4):113-118. doi:10.1007/s00508-013-0483-3.
8.        Le LT, Sabaté J. Beyond meatless, the health effects of vegan diets: Findings from the Adventist cohorts. Nutrients. 2014;6(6):2131-2147. doi:10.3390/nu6062131.
9.        Dinu M, Abbate R, Gensini GF, Casini A, Sofi F. Vegetarian, vegan diets and multiple health outcomes: a systematic review with meta-analysis of observational studies. Crit Rev Food Sci Nutr. February 2016:00-00. doi:10.1080/10408398.2016.1138447.
10.      Gomes SC, João S, Pinho P, et al. Linhas de Orientação Para Uma Alimentação Vegetariana Saudável.; 2015.

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