24 Mar Pragmático ou Absolutista?

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Por Matt Ball (activista, consultor da organização VegFund, co-fundador da organização Vegan Outreach, co-autor do livro The Animal Activist’s Handbook, e autor do livro The Accidental Activist)

Publicado originalmente em 2000.

Será que empreender ou apoiar medidas reformistas prejudica o objectivo a longo prazo da libertação animal?

Expandir o chão da gaiola

O movimento dos agricultores sem terra brasileiros tem um slogan: “Expande o chão da gaiola antes de tentares quebrá-la”. É uma forma de dizer que os activistas devem tentar melhorar o status quo de modo a terem mais margem para trabalhar numa solução permanente. Uma das posições dentro do momento de libertação animal estabelece que podemos apoiar reformas que melhorem o bem-estar e educar a população enquanto se trabalha para uma solução permanente. Uma outra posição bastante comum pode ser sumarizada como “direitos primeiro, direitos apenas, direitos acima de tudo”. A perspectiva histórica dá-nos alguma indicação de qual destas abordagens favorecerá mais os animais?

Lições de história: se os abolicionistas tivessem sido absolutistas

É fácil defender a adesão pura à nossa filosofia pessoal actual. No entanto, o historial dos movimentos sociais bem sucedidos revela-nos a importância de fazer, na medida do possível, uma aprendizagem com o passado. Todos esses movimentos que se revelaram bem-sucedidos, como o da abolição da escravatura, o movimento do direito da mulher ao sufrágio, o movimento de direitos civis, e o movimento dos direitos dos gays, caracterizam-se por um esforço contínuo em reformar o sistema ao mesmo tempo que trabalhavam em direcção a um fim.

Por exemplo, o caso do abolicionismo e do subsequente movimento de direitos civis nos Estados Unidos. O ímpeto destes movimentos cresceu com mudanças incrementais que melhoraram o estatuto dos afro-americanos. Estes progressos reforçaram a confiança dos seus proponentes, permitindo-lhes reivindicar mais direitos. Se o movimento tivesse cegamente rejeitado todas as reformas, é improvável que tivesse ganho o ímpeto necessário para ser bem sucedido. Imaginemos se Frederick Douglass tivesse defendido “Direitos de voto iguais para todos ou para ninguém. Representação igual para todos no governo e nos negócios, ou representação nenhuma”. Imagine-se se Lincoln tivesse recusado a carta de proclamação da emancipação dos escravos porque não abrangia alguns dos estados americanos periféricos, e por não garantir o fim do preconceito e segregação racial (vê o livro When Freedom Would Triumph). Douglass, Lincoln, Thaddes Stevens (ver aqui) entre outros, viram que as posições absolutistas alienariam a maioria da população, condenando os projectos de abolição ao fracasso (lê Lincoln e o Primeiro Passo).

O mesmo destino é reservado a qualquer movimento que não agarre as reformas e não lute para ganhar exposição quando as oportunidades surgem. Os movimentos absolutistas apenas atraem aqueles que já estão convertidos a uma causa, mantendo-se confinados a um pequeno sector de activistas dedicados mas isolados. Ao exigirem “nada menos do que completa libertação”, muitos grupos condenaram-se à exaustão rápida e ao relativo anonimato para além daqueles que já estão dentro do movimento. Alienaram-se das considerações do público e dos potenciais aliados que pudessem encontr
ar nele, e não oferecem qualquer incentivo às indústrias animais para mudarem.


Organizações mais variadas, por outro lado, atraíram uma ampla diversidade de voluntários e seguidores, quer vegetarianos como não vegetarianos, permitindo aos indivíduos participar e evoluir. Estes grupos alcançam resultados significantes porque conseguem chegar às pessoas que poderão de momento não partilhar todas as opiniões do grupo, dando-lhes espaço para evoluir em relação às suas perspectivas e escolhas, ao mesmo tempo trabalhando para produzir reformas institucionais. Em última análise, a história mostra-nos que os indivíduos, empresas e a sociedade evoluíram no sentido de uma ética mais compassiva por uma via gradual, à medida que a sua consciência e as reformas avançavam incrementalmente.


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“Tem de piorar antes de melhorar”

Alguns defensores da libertação animal argumentam que este movimento é singular e diferente de todos os outros, opondo-se às reformas bem-estaristas [que visam o aumento do bem-estar do animal], porque acreditam que as pessoas não se tornarão veganas se souberem que os animais estarão a ser tratados “melhor”. Por exemplo, se o público for notificado que a McDonald´s começará a obter os seus ovos de produtores que mantêm as galinhas em gaiolas mais espaçosas, poucas pessoas alterarão as suas escolhas de consumidor.


Muito embora este argumento aparente conter uma certa lógica, a evidência sugere que as reformas atraem atenção da comunidade não vegetariana para a problemática da exploração animal, persuadindo muitos a reconsiderar a ética das suas acções; de acordo com a indústria da carne: “A atenção mediática para assuntos de bem-estar animal na década passada resultou em efeitos negativos substanciais na demanda comercial de carne nos Estados Unidos… Este estudo descobriu que a atenção mediática provocou uma transição consumista para produtos vegetarianos, ao invés de incentivar os consumidores a simplesmente optarem por outra marca de carne”. (Vê aqui ainda mais evidência nesse sentido.) Os grupos de direitos animais então aproveitam estas pequenas vitórias para ganharem visibilidade e reivindicarem mais reformas. Desta forma, as medidas de reforma bem-estaristas acabam por ser uma bola de neve no sentido da abolição, e não um afastamento desse objectivo.

Países europeus – particularmente o Reino Unido – apresentam também um contra-argumento forte para o argumento de que “deve piorar antes de melhorar”. Os animais são muito mais bem tratados, e o vegetarianismo é mais disseminado. Existe um grande número de restaurantes vegetarianos, e os restaurantes não vegetarianos têm mais opções vegetarianas. Os progressos no bem-estar animal dentro da indústria conferiram ímpeto e confiança tanto ao movimento pelo bem-estar e como pela abolição no Reino Unido. E a atenção dada às práticas comerciais e legislativas de bem-estar animal aumentou a sua visibilidade e o interesse público nos métodos de produção da sua comida.

O mesmo poderá ser dito acerca dos Estados Unidos. A reforma de uma grande multinacional como a McDonald´s pode iniciar um efeito dominó que atravessará toda a indústria de carne. Os competidores terão maior incentivo para rivalizar e ultrapassar as reformas da McDonald´s, desta forma consubstanciando uma série de melhorias significativas no bem-estar e condições em que os animais são criados e mortos em toda a indústria. Nenhuma companhia quer ser destacada como “cruel.”

Mais importante, quando as indústrias que dependem da exploração animal dão atenção ao assunto do bem-estar animal, o assunto obtém de longe mais a consideração séria do público consumidor, do que aquela que os defensores dos animais alguma vez poderiam esperar alcançar sozinhos. Uma vez que as próprias companhias reconhecem que os animai
s têm interesses, torna-se mais difícil justificar usá-los para alimentação, independentemente de condições específicas.


Claro que eu compreendo totalmente aqueles que acreditam que o McDonalds é o “inimigo” e que temos de “destruí-los.” Mas o McDonald´s é apenas a encarnação da demanda de consumidor. Vilificar uma corporação sem rosto distrai-nos do que deve ser a nossa preocupação primária – o sofrimento dos animais. Mais importante ainda, focarmo-nos em distracções corporativas distrai-nos de abordarmos a raiz deste sofrimento – as escolhas dos consumidores.

Obviamente a McDonald´s não se vai tornar vegana amanhã – pelo menos, enquanto não for obrigada pelas escolhas dos seus consumidores. Até então, as reformas e a educação de consumidor poderão aumentar a consciência pública para o assunto e reduzir o sofrimento animal existente. Isto não nos impede de defendermos escolhas compassivas através do nosso activismo. Juntas, estas aproximar-nos-ão da libertação animal.


Pureza ou Progresso?


Podemos escolher utilizar os nossos recursos limitados opondo-nos a quaisquer reformas de bem-estar de modo a “não comprometermos os nossos princípios”. Mas este não é o caso a não ser que o princípio que te oriente seja “Nunca, sob qualquer circunstância, deixar que qualquer grupo trabalhe com negócios ou com pessoas não veganas.” Por que motivo haveria alguém de ter esse princípio sobre todos os outros, especialmente quando está em oposição com outro que parece mais fundamental e defensível: “Trabalha para reduzir o sofrimento animal”?

Claro que isto não significa que de forma alguma que todas a gente se deva focar em medidas que visem o bem-estar. No momento actual, a maior parte de nós pode diminuir a maior parte do sofrimento de forma mais apropriada ao promover mudanças de consumo no nosso activismo.


E se fosses tu?


Se estivesses a ser torturado 24 horas por dia numa cela de prisão, quererias ter o absolutista do teu lado? Pedirias que ninguém do lado de fora tentasse parar a tua tortura porque tinha de serliberdade total, e nada menos do que isso”? Acreditarias que quanto pior fosse o teu tratamento e quanto maior fosse o teu sofrimento, mais próximo estarias da tua libertação? Ou preferias que alguém denunciasse as tuas circunstâncias e produzisse reformas que garantissem uma redução significativa do teu sofrimento, trabalhando simultaneamente para alcançar a tua libertação?

Resumindo, preferirias que quem te defende fosse um pragmatista, focado em dar o seu melhor por ti a todos os níveis? Ou preferirias um absolutista, cuja dedicação é principalmente para com a pureza da sua posição?

Lê também: The Longest Jouney Begins With a Single Step: Promoting Animal Rights by Promoting Reform, por Peter Singer e Bruce Friedrich

Tradução: Nuno Alvim
Traduzido com permissão do autor.
Artigo original: http://www.mattball.org/2014/08/welfareandliberation.html


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