25 Mar Os direitos dos animais como travão do Homem

Há uns dias, enquanto trabalhava o meu blogue, deparei-me com uma frase que escrevi em 2015 e que dizia o seguinte: “os direitos dos animais são o travão de que o Homem precisa para se salvar”. A publicação não dizia mais nada, pelo que, à falta de explicações sobre o que pretendi dizer com aquela frase, permiti-me a reflectir sobre a mesma.

Cheguei desde logo à conclusão de que a salvação a que aludo na frase não é, antes fosse, metafórica. Podemos não conceber esse cenário, podemos dele não gostar, mas existe, leia-se, é real, o perigo de extinção da espécie humana. E é real não apenas pelos danos que diariamente infligimos no planeta e demais espécies – aos quais temos dado, colectivamente, maior atenção nos últimos tempos fruto da vivência diária com as consequências que deles resultam – mas também pelos danos que infligimos a nós próprios, à nossa espécie, sem que aprendamos alguma coisa com isso. A título de ilustração, nós somos aquela espécie que reconhece que o aquecimento global é um flagelo que urge contrariar, mas também somos a espécie que, simultaneamente, se permite a criar metas a vinte e trinta anos, chegando ao ponto de as considerar ambiciosas.

Mas então, “os direitos dos animais são o travão de que o Homem precisa para se salvar”. São-no na exacta medida em que consagrá-los e fazê-los cumprir nos colocarão, a nós espécie humana, mais próximos de uma sociedade justa e sã. Mas não apenas! São-no igualmente porque, ao consagrá-los e aos fazê-los cumprir, estaremos a redefinir o nosso posicionamento no mundo, abandonando de vez o pedestal antropocêntrico em que nos colocámos, o qual tanto tem contribuído para o esgotamento do planeta e o atropelo das restantes espécies.

O que quis dizer com aquela afirmação foi que os animais, não apenas por aquilo que são – na minha perspectiva sujeitos com animus vivendi[1], mas também e muito especialmente, por aquilo que personificam – seres vulneráveis, expostos e totalmente à mercê da vontade humana -, terão um papel importante no futuro do Homem.

Uma sociedade que respeita os animais estará tanto mais próxima de respeitar-se a si própria e aos seus cidadãos e será, necessariamente, uma sociedade mais empática e compassiva, predicados que, no meu entender, muito nos têm faltado. É por isso que, sei-o hoje, o que está por detrás da reivindicação de direitos para os animais é muito mais do que o mero respeito pelo valor vida dos animais: é o respeito pelo próximo. O próximo que já existe e o que ainda irá existir. É também o respeito por nós próprios.

[1] NUNES, André B., Sim! Os Animais têm Direitos., Lisboa, Chiado Editora, 2015.

Biografia de Autor

André Nunes
André Nunes
Nasceu em 1984, é casado, pai de uma menina vegetariana e responsável por sete animais maravilhosos. Licenciou-se em Direito e é advogado de profissão. Para além disso, é actualmente eleito municipal pelo PAN na Assembleia Municipal do Seixal para o quadriénio 2017-2021. É autor de dois livros: "A ilha dos inermes" e "SIM! Os animais têm direitos!"
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