30 Mar Produção industrial de animais provoca danos ambientais

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Introdução ao Relatório “A Longa Sombra da Pecuária” (Livestock’s Long Shadow)
Autoria: Agência para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO – Food and Agriculture Organization of The United Nations)O relatório da FAO (Agência para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas)refere que a produção pecuária é uma das principais causas para os problemas ambientais actuais, incluindo o aquecimento global, a degradação do solo, a poluição do ar e da água e a perda da biodiversidade. Usando uma metodologia que tem em consideração toda a cadeia produtiva, é estimado que a produção pecuária é responsável por 18% das emissões dos gases de efeito de estufa, o que constitui uma maior percentagem do que a do sector dos transportes. No entanto, o relatório diz que a potencial contribuição do sector da pecuária para resolver os problemas ambientais é igualmente grande, e que muitas das melhorias podem ser alcançadas com um custo razoável. Baseado nos dados disponíveis mais recentes, o relatório “A Longa Sombra da Pecuária” (Livestock’s Long Shadow) tem em consideração o impacto directo do sector, juntamente com os efeitos ambientais do uso da terra que lhe estão subjacentes e produção das colheitas que os animais consomem. Este relatório conclui que o crescimento da população e dos salários a nível mundial, juntamente com a mudança das preferências alimentares, estão a estimular um rápido aumento da demanda de carne, leite e ovos, enquanto que a globalização está a potencializar o comércio tanto das matérias-primas como dos produtos transformados.


No processo, o sector da pecuária está a passar por uma complexa situação de mudança técnica e geográfica. A produção está a transitar da área rural para as áreas urbana e suburbana, tanto ao nível das áreas de colheita como ao nível dos transporte e dos centros de comércio onde os produtos finais da pecuária são distribuídos. Também tem estado a haver uma mudança nas espécies produzidas, reflectindo-se um crescimento acelerado na produção de porcos e de aves (sobretudo em unidades de produção intensiva) e um abrandamento na produção de bovinos, ovelhas e cabras, que são geralmente criadas de forma extensiva. Hoje em dia, o crescimento do sector da pecuária, estimado em 80%, vem dos sistemas de produção industrial (ou intensiva). Devido a estas alterações, diz o relatório, a produção pecuária está a entrar numa crescente competição por solo, água e outros recursos naturais.

Desflorestação: O sector da pecuária é de longe o maior utilizador antropogénico (antropogénico = criado pelo homem) de terra. Actualmente, o pasto ocupa 26% da superfície terrestre, enquanto que a produção de colheitas directamente para consumo humano requere cerca de 1/3 de toda a terra arável. A expansão do terreno de pasto para a pecuária é uma das principais causas para a desflorestação na América Latina – cerca de 70% da antiga área florestal da Amazónia é agora usada como pasto, e as colheitas para consumo do gado cobrem agora uma vasta área. Cerca de 70% de toda a área de pasto é considerada degradada, sobretudo devido ao excesso de pasto, compactação e erosão atribuíveis à actividade pecuária.

Aquecimento Global: Simultaneamente, o sector da pecuária assumiu um papel, frequentemente não reconhecido, no aquecimento global. Usando uma metodologia que tem em consideração toda a cadeia produtiva, a FAO estimou que a pecuária é responsável por 18% das emissões de gases de efeito de estufa, mais do que percentagem emitida pelo sector dos transportes. É também responsável por 9% das emissões antropogénicas de dióxido de carbono, em grande parte devido à expansão de pastos e do terreno arável para colheitas (para a alimentação do gado). A pecuária gera ainda grandes emissões de gases com um elevado potencial de aquecer a atmosfera (contribuindo para o efeito de estufa): mais de 37% de metano antropogénico, a maior parte resultante da fermentação entérica dos ruminantes, e 65% de óxido nitroso, maioritariamente proveniente dos dejectos dos animais.

Contaminação dos Recursos de Água: A produção pecuária também tem um grande impacto sobre o abastecimento de água do planeta, gastando mais de 8% da água global que o ser humano usa, maioritariamente para a irrigação de colheitas para a alimentação do gado. A evidência sugere que a pecuária é o sector que gera mais poluentes da água, tais como os dejectos dos animais, os antibióticos dados aos animais, os químicos resultantes do curtume, fertilizantes, pesticidas e sedimentos erodidos provenientes do pasto. É estimado que só nos EUA o pasto e a agricultura são responsáveis por cerca de 37% do uso de pesticidas, 50% do uso de antibióticos e 1/3 das descargas de nitrogénio e de fósforo nos recusros recursos naturais de água. O sector também gera quase 2/3 da amónia antropogénica que contribui significativamente para a ocorrência de chuva ácida e para a acidificação dos ecossistemas.

Ameaça à Biodiversidade: A quantidade de animais criados para consumo humano também constitui uma ameaça à biodiversidade terrestre. A pecuária constitui 20% da biomassa terrestre total e a quantidade de terra que agora ocupa foi antes o habitat da vida selvagem. Em 306 de 825 eco-regiões terrestres identificadas pelo Fundo Mundial para a Natureza (Worldwide Fund for Nature), a pecuária é identificada como “uma ameaça actual” uma vez que 23 dos 35 pontos de conservação global – caracterizados por elevados níveis de perda de habitat – estão a ser afectados pela produção pecuária.

Duas Exigências: A FAO afirma que “o futuro da relação pecuária – ambiente será decidido dependendo da forma como resolvermos as duas exigências: os produtos de origem animal de um lado e do outro lado os serviços ambientais”. Uma vez que os recursos naturais são finitos, a imensa expansão do sector da pecuária requerida para responder ao aumento das exigências deve ser acompanhada de uma redução substancial do seu impacto no ambiente.

Uma maior eficiência no uso dos recursos será “a chave para a retracção da longa sombra da pecuária”. Apesar de já estarem a ser aplicadas soluções técnicas eficazes – gestão de recursos, produção de colheitas e de pecuária e redução da perda de colheitas – os actuais preços de terra, água e de recursos alimentares usados para a produção de pecuária não reflectem a real escassez, criando distorções que não constituem qualquer incentivo a uma gestão de recursos eficiente. “Isto conduz a um uso excessivo de recursos e a uma grande ineficiência no processo de produção”, diz a FAO. “As políticas futuras para proteger o ambiente terão que incluir preços adequados para as suas principais matérias-prima.”

Em particular, a água é fortemente subvalorizada em muitos países. Serão necessários o desenvolvimento dos mercados de água e vários tipos de acções de recuperação de custos para corrigir esta situação. No caso da terra, serão necessários instrumentos tais como o imposto de pasto e melhores acções institucionais para um acesso controlado. A remoção de subsídios para a produção pecuária provavelmente melhorará a eficiência técnica – na Nova Zelândia, uma redução drástica nos subsídios para a agricultura durante os anos 80 ajudou a criar uma das indústrias de gado mais eficientes e amigas do ambiente. O desaparecimento das distorções de preço nos insumos (nas matérias-primas) e o nível do produto irão minimizar o uso de recursos naturais, mas poderão por si
só não ser suficientes.

O relatório “A Longa Sombra da Pecuária” refere que as implicações ambientais devem ser explicitamente consignadas no quadro político. Os produtores de pecuária que cumprem os serviços ambientais devem ser recompensados, seja pelo imediato beneficiário (tais como os utilizadores de riachos que beneficiam de uma melhor qualidade e quantidade de água) ou pelo público em geral. Os serviços que devem ser recompensados são os que incluem a gestão de terra ou o uso de terra que restaure a biodiversidade e, igualmente, os que façam uma gestão de pasto que contribua para a sequestração do carbono. Os esquemas de compensação também precisam de ser desenvolvidos entre os fornecedores de água e electricidade para que adoptem estratégias que reduzam a sedimentação dos reservatórios de água.

De forma semelhante, os produtores de pecuária que descarregam resíduos nos cursos de água ou que libertam amónia para a atmosfera deveriam pagar pelos danos que causam. O princípio “poluidor pagador” não representaria uma questão insuperável para os poluidores, dada a procura de produtos derivados da pecuária.

Pressão do Consumidor: Finalmente, a FAO, afirma que o sector da pecuária é frequentemente orientado por diversos objectivos políticos, e os decisores acham difícil atender simultaneamente aos assuntos económicos, sociais, de saúde e ambientais. O facto de que tantas pessoas dependem da p
ecuária para o seu sustento limita as opções políticas disponíveis, e conduz a dificuldades negociais.

A informação, a comunicação e a educação terão um papel fundamental em estimular a “vontade de agir”. Com uma forte e crescente influência, os consumidores serão a fonte mais provável de pressão política e comercial “para que a pecuária se torne mais sustentável”. Para já, a crescente consciência da ameaça ao ambiente está a traduzir-se numa necessidade cada vez maior de serviços ambientais: “Esta necessidade estende-se desde as preocupações imediatas – tais como reduzir a praga de moscas e os odores – à necessidade intermédia de despoluir a água e o ar, e depois irá estender-se a preocupações ambientais de longo prazo, que incluem as alterações climáticas e a perda da biodiversidade”.

Tradução: Sílvia Ferreira
Leia aqui o relatório completo (em inglês) aqui.

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