Gabriela Oliveira

Esta entrevista foi realizada em 2012 a propósito da segunda edição do livro “Alimentação Vegetariana para Bebés e Crianças”, entretanto esgotada e substituída pelo livro “Cozinha Vegetariana para Bebés e Crianças”, editado em 2016 pela Arte Plural Edições.

Há quanto tempo a Gabriela é vegetariana?

Tornei-me vegetariana há 13 anos, na altura em que estava a terminar a Faculdade. Alguém muito especial falou-me das razões do vegetarianismo e mostrou-me que era relativamente simples conseguir substituir a carne e o peixe por alimentos vegetarianos. Foi uma conversa intensa, com o esgrimir de argumentos de um lado e do outro. Até que caí em mim e, em poucos dias, mudei radicalmente a forma como planeava as minhas refeições.

E o que a motivou a adoptar o vegetarianismo?

Foi perceber que o sofrimento dos animais não tinha sentido! Que era uma morte em vão porque, afinal, podíamos obter todos os nutrientes que precisamos recorrendo a outras fontes. Descobri o seitan, o tofu, a soja… e já não conseguia mastigar a carne.

O que a levou a escrever o livro “Alimentação Vegetariana para Bebés e Crianças”?

Mudar para um regime vegetariano não era – e ainda hoje não é – visto como uma atitude sensata. E quando se trata de crianças há ainda mais dúvidas e receios. Com o nascimento do meu primeiro filho notei que havia pouquíssima informação sobre o assunto. Procurei livros que me esclarecessem sobre a alimentação das crianças, mas não havia nada, escrito em português, que fosse específico para crianças vegetarianas. Comecei por escrever artigos e fazer reportagens relacionadas com o tema e, quando fiquei pela segunda vez de licença de maternidade, resolvi escrever o livro.

Foi complicado escrever sobre um tema tão pouco explorado em Portugal?

Foi moroso porque eram poucas as fontes de informação disponíveis. Se na altura a internet tivesse a força e a informação que tem hoje, teria sido muito mais fácil. Tive que recorrer à consulta de livros e revistas estrangeiras, e também a entrevistas a pessoas relacionadas com a área da saúde e da nutrição.

No geral, o seu o livro tem sido recebido favoravelmente?

Tem havido uma boa reacção, sobretudo agora que saiu a segunda edição com nova capa. Hoje as pessoas estão muito mais abertas e receptivas a experimentar novos alimentos, novas formas de cozinhar. Há também uma preocupação muito grande com a segurança alimentar e com as questões de saúde e a alimentação vegetariana dá algumas respostas a quem tem alergias. Alguns pais deixam comentários e dúvidas na página do Facebook (http://www.facebook.com/pages/Alimentação-Vegetariana-para-Bebés-e-Crianças).

Como têm os seus filhos reagido à alimentação vegetariana?

Eles assumem que são vegetarianos com naturalidade e estranham que tão poucas pessoas sejam vegetarianas e que tantas nunca tenham sequer provado a soja, o seitan ou outro prato típico vegetariano. Apercebem-se disso quando lhes perguntam o que é que eles têm no prato… E quando eram pequenos ficavam chocados quando viam os leitões assados no supermercado ou os frangos e os coelhos mortos, esfolados e embalados. Não conseguiam compreender porque é que se matavam os animais.

Na escola é-lhes disponibilizada comida vegetariana ou têm que levar de casa?

Acontecem as duas situações. No jardim de infância levam o substituto proteico, para juntar ao prato do dia, e na escola do mais velho a cozinheira aprendeu a cozinhar vegetariano, para ele e para outras crianças. São escolas públicas e a lei prevê estas situações. Há uma circular do Ministério da Educação que diz que podem ser servidas ementas alternativas desde que sejam justificadas por receita médica ou declaração religiosa (circular nº14/DGIDC/2007, Anexo B, Ponto 6, alínea E). No caso da escola não ter capacidade para preparar, então tem que permitir que o aluno leve de casa. Basta apresentar uma declaração médica, a informar que a criança segue um regime vegetariano, foi o que fizemos.

No seu livro não se mostra favorável ao consumo de leite de vaca. Imaginamos que isso possa surpreender algumas pessoas.

No livro digo que beber leite de vaca é uma escolha, não é uma imposição. Do ponto de vista nutricional, as bebidas de soja – conhecidas por “leite de soja” e as outras de origem vegetal fornecem os mesmos nutrientes e nas mesmas proporções que o leite de vaca, com a vantagem de não conterem lactose nem gorduras saturadas. Mas ainda subsiste a ideia de que as crianças e os adultos têm mesmo de beber leite de vaca. Há alternativas válidas. Compreendo que seja mais difícil encontrar substitutos para os queijos porque o sabor e a textura são muito particulares. Idealmente, o mundo seria vegan!

Embora a alimentação vegetariana bem planeada seja considerada por associações de nutricionistas e dietistas internacionais (por ex. EUA e Canadá) como adequada a qualquer idade e fase da vida, tem sentido algum preconceito sobre o tema em Portugal?

Tenho notado uma evolução muito grande nos últimos cinco anos – veja-se a quantidade de restaurantes vegetarianos que abriram e de lojas especializadas! – mas basta irmos para meios rurais ou para cidades do interior do país para nos apercebermos que o preconceito ainda está bem vivo. Por mais informação que seja disponibilizada, há um peso muito grande da tradição de comer carne. Está enraizado nas pessoas e só quem é tocado bem lá no fundo – por razões éticas, ecológicas, religiosas ou de saúde – é que muda e mantém essa vontade. Se não, mais cedo ou mais tarde, acaba por desistir.

Tem recebido criticas de pais que não sejam vegetarianos relativamente ao seu livro? Nesse caso, como opta por lhes responder?

Sim, acontece. Alguns pais querem dar a conhecer aos filhos os alimentos típicos vegetarianos mas não acham bem que uma criança não coma carne! Na maioria das situações, desconhecem que a soja, por exemplo, tem ainda mais proteínas do que a carne de vaca ou que uma dieta ovo-lacto-vegetariana fornece todos os nutrientes, sem ser preciso recorrer a suplementos alimentares. Além disso, eu justifico que cabe aos pais darem aos filhos o que consideram ser o melhor. E a partir do momento em que os filhos sabem expressar-se, devem ser escutados para saber se compreendem as razões e se estão receptivos a terem uma alimentação vegetariana. Algumas famílias optam por manter o regime vegetariano em casa mas fora de casa dão a liberdade de escolha aos filhos.

Tem tido conhecimento de casos em que o seu livro tenha ajudado pais que, sendo vegetarianos, tinham falta de informação sobre as necessidades nutricionais de uma criança vegetariana?

Soube de pais vegetarianos que, como eu, tinham dúvidas sobre o que os bebés podiam ou não comer. Pais que estavam divididos, sem saber se haviam ou não de mudar de alimentação porque tinham a responsabilidade de educar uma criança. Pais que ficavam alarmados com os comentários dos pediatras e com a falta de orientação porque nem os próprios médicos sabiam responder às dúvidas. O livro veio sossegar muitas famílias mas também “abanou” outras.

Finalmente, qual o principal conselho que poderá dar aos pais de crianças vegetarianas?

Que falem com os filhos sobre a comida que têm no prato, que lhes mostrem os benefícios de poupar a vida dos animais. E, sobretudo, que escutem o que as crianças pensam e sentem. Algo imposto pode ter o efeito contrário a médio prazo. Porque a partir de certa altura, são os filhos, e não os pais, que controlam o que eles comem. Se despertarmos um pouco mais a sensibilidade e a consciência das crianças para a necessidade de respeitar os animais e o equilíbrio ecológico do planeta, então, estamos no bom caminho.

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