Um super porco em CGI foi tudo o que foi preciso para as pessoas repensarem os seus hábitos alimentares.

Uma boa maneira de converter pessoas que comem carne em vegetarianos é mostrar-lhes uma suinicultura tal qual como ela é. Ou então um documentário, um que mostre realmente a crueldade e sofrimento de um matadouro. Mas talvez essa ideia lhe possa parecer um pouco entediante e, em vez disso, opta por ver um bom filme de acção na Netflix.

 

 

Lembro-me de ter recebido um e-mail mesmo antes do filme sair que dizia: “Há pessoas no mundo todo que ainda não se aperceberam que estão prestes a tornarem-se vegetarianas.”

 

Talvez alguns espectadores não soubessem no que se estavam a meter quando fizeram streaming do filme Okja do realizador Bong Joon-ho’s, um filme genial sobre uma jovem coreana (Mija) e o seu adorável “super porco” CGI (Okja). A ficção cientifica é muitas vezes uma forma secreta de reinterpretar e explorar problemas da vida real, mas as mensagens de Okja são mais rápidas de perceber do que a maioria das vezes. Neste caso, isso é provavelmente uma coisa boa. A mensagem do filme? Coma menos carne.

Mas eu não consegui deixar de pensar: terá Okja inspirado alguém a modificar a sua dieta?

Para algumas pessoas, o distanciamento narrativo que separa Okja de, por exemplo, um documentário ajudou a causa. Para alguns, serviu como um ponto de partida para uma análise sobre a questão ética do consumo de carne.

“Vejo cada vez mais amigos meus a afastarem-se do consumo de carnes vermelhas devido a problemas de saúde ou por questões ambientais.”, disse o cineasta Tom Park, que é vegetariano desde o lançamento de Okja. “O filme levou-me a pesquisar intensivamente sobre a criação de gado. O que vi parecia um filme muito sombrio e distorcido da Pixar. O final é uma história de terror sobre como as famílias são separadas e sobre as cruéis condições de vida dos porcos.”

Annie McCarthy, uma designer de 23 anos, redescobriu o vegetarianismo depois do filme a ter lembrado do que a inspirou a deixar de comer carne e peixe da primeira vez. Apesar dos desafios, desta vez não pretende desistir: “Fiquei com o final do filme na cabeça. Há uma semana fui ao meu restaurante de pho preferido e reparei que eles não têm nenhum prato sem carne. E apercebi-me que ser vegetariana iria ser muito mais difícil do que aquilo que eu me lembrava.”

Jon Ronson, um escritor que co-escreveu o filme com Bong Joon-ho, disse-me que ele próprio foi abordado por pessoas cujo estilo de vida mudou depois de verem Okja: “Oh, eram tantas pessoas. Tantas histórias de vida. Lembro-me de ter recebido um e-mail mesmo antes do filme sair que dizia: “Há pessoas no mundo todo que ainda não se aperceberam que estão prestes a tornarem-se vegetarianas.”. Li que as pesquisas no Google pelo termo vegan aumentaram 65% depois do lançamento de Okja. Não faço a mínima ideia se essas pessoas seguiram esse estilo de vida ou não, mas o impacto está lá.”

Então, porquê este filme? Porquê Okja e não documentários como o Food, Inc. ou o manifesto vegan de Jonathan Safran Foer, Eating Animals? A auto-reflexão e o próprio conflito pessoal de Bong Joon-ho ajudou e conseguiu-o sem nunca mostrar que se tratava de um imperativo moral. O realizador estendeu essa “gentileza” ao seu elenco. Paul Dano, que no filme é o líder da fictícia Frente de Libertação Animal, falou à revista GQ sobre a sua relação complicada com o consumo de carne depois de ter feito o filme. E Ronson, também ele vegetariano, diz que o realizador nunca falou sobre o assunto: “Bong nunca me perguntou quais eram os meus hábitos alimentares, mas acho que é apropriado não comer carne.”

“É uma narrativa realmente poderosa, informada e muito humana esta escrita por Bong Joon-ho” disse Abbey White, uma critica de arte e gastronomia que achou a transição para um estilo de vida vegetariano muito difícil dada a sua aversão a “vegetais que não escorram molho ou que não lhes tenha sido tirado todo o sabor.”

“Depois de me tornar vegetariana, encomendei alguns dumplings vegan para comer no meu apartamento. Não fiquei fã. Entrei em pânico. Pensei: “Vivo em Nova Iorque e nunca mais vou comer dumplings de carne?” White continuou: “Passei o mês seguinte a experimentar todos os dumplings vegan que encontrava até que consegui encontrar um que gostei mesmo. Isso, para mim, é a chave para te tornares vegetariana. Saíres da tua zona de conforto para encontrar novas comidas que te deem prazer de comer, que te confortem.”

O final do filme questiona: Qual é o nosso lugar, a nossa responsabilidade dentro de um sistema construído para que não consigamos mudar muita coisa?

Quando Mija compra Okja para a salvar trata-se de uma piada sombria e de uma vitória. Somente contribuindo para o capitalismo consumista draconiano que criou e aprisionou Okja é que Mija consegue libertar a sua amiga.

“Vou-te dizer: quando estávamos a escrever o guião, não tínhamos um distribuidor,” disse Ronson. “Nós escrevemos como achámos que a história devia ser contada. Todos os grandes estúdios queriam cortar a cena do matadouro. Ou então torná-la praticamente invisível. Bong e eu sentimos algum medo, mas a Netflix salvou o dia. Acredito que o poder de Okja teria sido fortemente diminuído por um grande estúdio.”

 

O final do filme questiona: Qual é o nosso lugar, a nossa responsabilidade dentro de um sistema construído para que não consigamos mudar muita coisa?

 

Parar de consumir carne pode ser, acima de tudo, uma questão pessoal. Perguntei a Abbey White: O que devemos fazer a seguir? “É importante levar as pessoas a preocuparem-se com esta mudança e depois dar-lhes as chaves. Penso que em relação ao primeiro ponto, “Okja” fez um óptimo trabalho, pelo menos para mim.”

Parece que a melhor maneira de levar as pessoas a deixarem de consumir carne é fazer um bom filme.

Artigo original: https://www.gq.com/story/the-people-who-saw-okja-and-became-vegetarians