fbpx

O Vegetarianismo ao longo da História da Humanidade

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp

I. Na Pré-história

O vegetarianismo surgiu há cerca de 5 milhões de anos atrás. O nosso antepassado mais antigo, o Australopithecus Anamensis, alimentava-se de frutas, folhas e sementes, vivendo em perfeita harmonia com os animais mais pequenos, que poderia facilmente apanhar para se alimentar, mas a índole destes hominídeos era pacífica e assim continuou até ao Australopithecus Boesei (existiu há cerca de 2,4 – 1 milhão de anos).

Parece que o consumo de carne surgiu bastante tarde na evolução humana. Para se ter uma ideia, Colin Spencer diz que, comprimindo a nossa evolução na vida de uma pessoa de 70 anos, o consumo de carne começa apenas nos últimos nove dias [1]. A Drª Jane Goodall explica que hoje é aceite que, apesar de os primeiros humanos terem provavelmente consumido alguma carne, é muito improvável que esta tenha tido um papel importante na sua dieta. [2] Em 2005 a hipótese do ser humano caçador foi descartada pelos antropologistas Donna Hart e Robert W. Sussman no livro Man the Hunted, onde argumentam que os nossos antepassados foram presas de outros animais, e não predadores, e que foi a necessidade de escaparem que levou a habilidade intelectual e a linguagem: “Conviver com um predador grande e forte pode ter estimulado o cérebro a tornar-se maior e mais complexo uma vez que a única forma de viver é literalmente ser mais esperto que o predador” [3]. Acrescentam ainda que nenhum hominídeo caçou a grande escala antes do advento do fogo controlado. [4] Afirmam também que o consumo de carne não poderia ter feito os cérebros humanos crescerem e que este crescimento ocorreu muito antes de a carne vermelha ser parte regular da dieta humana. [5] Spencer, a propósito, notou que “deve ser claro que a carne como proteína não é muito superior aos ovos e nozes e não poderia alterar a evolução do cérebro; se fosse esse alimento milagroso teria continuado a aumentar o tamanho do cérebro humano nos anos seguintes quando quantidades muito maiores de carne foram consumidas.” [6]


Com o domínio do fogo e o desenvolvimento das armas, o Homo Neanderthalensis, nosso antepassado mais recente (127.000 – 30.000 anos), caçava, em grupos de 10 a 15 homens, animais de grande porte como os mamutes e outros animais mais pequenos como os veados, dos quais tudo era meticulosamente aproveitado. No período glacial em que vivia o Neandertal não havia outro alimento para além da caça, e o consumo de carne, com exclusão de alimentos vegetais poderá ter sido a causa da sua extinção. [7]

Mesmo a dieta das comunidades caçadoras-coletoras foi basicamente vegetariana, com um suplemento ocasional de carne. [8]

Tempos depois, as populações humanas foram criando culturas de vegetais fixas, que começaram a atrair animais como porcos selvagens, canídeos, cabras, aves, ratos e pequenos felinos, que foram sendo domesticados. Alguns animais começaram a ser mortos para consumo. Foi então que o Homem se tornou sedentário e começou a encarar os animais como alimentos.

II. Nas Civilizações Antigas

 Imagem

Por volta de 3200 AC, o vegetarianismo foi adoptado no Egipto por grupos religiosos, que acreditavam que a abstinência de carne criava um poder kármico que facilitava a reencarnação. Os egípcios foram os primeiros a acreditar na ideia da transmigração das almas através de vários corpos animais, humanos ou não humanos. [9] No entanto, segundo Heródoto, os sacerdotes egípcios não podiam comer peixe, mas consumiam outros tipos de carne. [10] Houve ainda diversos animais considerados sagrados, os quais não poderiam ser comidos. As vacas e os bois, por exemplo, eram animais sagrados e adorados. No terceiro século depois de Cristo, Porfírio escreveu que os egípcios e os fenícios mais rapidamente comeriam carne humana do que a carne de uma vaca. [11]

Na China e no Japão Antigos (século III, AC), o clima e os terrenos eram propícios às culturas de cereais e leguminosas. O primeiro profeta-rei chinês, Fu Xi, era vegetariano e ensinava às pessoas a arte do cultivo, as propriedades medicinais das ervas e o aproveitamento de plantações para roupas e utensílios. Gishi-wajin-den, um livro de história da época, escrito na China, relata que no Japão não existiam vacas, cavalos, tigres ou cabras e que os povos viviam das plantações de arroz, do peixe e dos crustáceos que apanhavam. Muitos anos mais tarde, com a chegada do Budismo (que advogava o vegetarianismo nos seus princípios), a proibição da caça e da pesca foi bem recebida pelas populações japonesas. Lao Tzu (c. 500 a.C.), autor do Tao Te Ching e fundador histórico do Taoismo, a religião mais antiga da china, foi também vegetariano, e os monges taoistas ainda seguem um regime vegetariano. [12]

Na Índia, animais como as vacas e os macacos foram adorados ao longo dos anos por simbolizarem a encarnação de divindades. Mahavira (c. 599-527), considerado o fundador histórico do Jainismo, uma das religiões mais antigas da Índia, foi vegano, e ainda hoje, os jainistas praticam essa alimentação. [13] Siddhartha Gautama, o Buda (c. 563- 483 a.C.), foi também rigorosamente vegetariano e não permitiu aos seus seguidores o consumo de carne ou qualquer ocupação que causasse sofrimento e morte aos animais. No Lankavatara Sutra, o Buda escreveu inequivocamente que “o consumo de carne em qualquer forma, de qualquer maneira, e em qualquer lugar, é incondicionalmente e duma vez para sempre, proibido a todos… o consumo de carne eu não permiti a ninguém, eu não permito, eu não vou permitir.” [14] Porém, segundo Norm Phelps, mal o Buda morreu, um grupo de monges budistas começou a construir sofismas para justificar o consumo de carne, dividindo assim os budistas entre vegetarianos e não vegetarianos. [15] Depois do Buda, o imperador indiano Asoka o Grande (250 a.C.), que reinou entre 264-232 AC, converteu-se ao Budismo, chocado com os horrores das batalhas. Ele proibiu os sacrifícios de animais e o seu reino tornou-se vegetariano. [16]

A Índia, ligada ao Budismo e Hinduísmo, religiões que sempre enfatizaram o respeito pelos seres vivos, considerava os cereais e os frutos como a melhor forma (mais equilibrada) de alimentar a população. Juntamente com estas práticas religiosas, certos exercícios, como o Yoga, associaram-se ao não consumo de carne, para alcançar a harmonia e ascender a níveis espirituais superiores. Os brâmanes, membros mais altos do sistema de castas indiano, são desde há muitos séculos, vegetarianos, pois a carne era tida como “o alimento mais poluente”, por envolver o contacto com animais mortos. [17]

Para os povos celtas e azetecas, intimamente ligados à natureza, a carne era reservada para grandes ocasiões: as festas que serviam para estreitar os laços sociais e ligar o mundo humano ao dos deuses pagãos. De resto, quando não estava ligado ao sacrifício, o consumo de carne dependia da caça. Apenas a caça escapava à lógica do sacrifício, mas no sistema de valores da cultura celta era uma actividade marginal.


III. Nas Culturas Grega e Romana

 Imagem

A ideologia alimentar grega e romana foi fundada sobre os valores do trigo, da vinha e da oliveira. Este modelo esteve frequentemente ligado à ideia de frugalidade: o pão, o vinho e o azeite (aos quais eram acrescentados os figos e o mel) eram elevados à categoria de símbolos de uma vida simples, de uma pobreza digna, feita de trabalho duro e de satisfações singelas. Na época, estas imagens eram a proposta alternativa dos gregos ao luxo e à decadência do povo persa, conforme mostram os textos clássicos. A proeminência do pão na cultura antiga era também decorrente da primitiva ciência dietética, que colocava o pão no topo da escala de nutrição. Os médicos gregos e latinos viam no pão o equilíbrio perfeito entre os “componentes” quente e frio, seco e húmido, conforme os ensinamentos de Hipócrates.

Em contraste, o consumo da carne foi sempre problemático. Imagem do luxo, da gula, da festa, do privilégio social, a carne não era considerada pelas civilizações antigas do Mediterrâneo como um bem tão essencial quanto os produtos da terra: o seu preço não era sujeito a um controlo político como eram os cereais. Em certas épocas, a venda de carne chegava a ser proibida ao público.

Havia também na Grécia Antiga a crença numa era primordial, a Era Dourada, em que reinava a paz entre os seres humanos e os outros animais, e em que a alimentação era vegetariana. Tal crença aparece registada em várias obras antigas, como o poema Os Trabalhos e os Dias do poeta grego Hesíodo (Século VIII a.C.).

Na Grécia antiga floresceu ainda o Orfismo, culto associado a Orfeu, que encarava com horror o assassinato de animais e suportava a teoria da transmigração das almas, assim como a abstenção de carne. É possível que este culto tenha exercido influência no pitagorismo. [18] E isto leva-nos a uma das figuras mais importantes da História do vegetarianismo: o matemático e filósofo grego Pitágoras (c. 570- 490 a.C.). Ele advogava a não crueldade para com os animais, sendo a crença na transmigração das almas a base do vegetarianismo que defendeu. Pitágoras verificou que as vantagens de um regime vegetariano eram imensas e que o vegetarianismo era a chave para a coexistência pacífica entre humanos e não humanos, focando que o abate de animais para consumo embrutecia a alma das pessoas. Ele tinha uma perspectiva holística, muito actual. Porfírio de Tiro, filósofo neo-pitagórico, escreveu que Pitágoras ensinou que todos os seres animados são parentes e deviam ser considerados como pertencendo a uma grande família. Os argumentos de Pitágoras a favor de uma dieta sem carne apresentavam três pontos: veneração religiosa, saúde física e responsabilidade ecológica. Estas razões continuam a ser citadas hoje em dia por aqueles que preferem levar uma vida mais responsável. Tornou-se célebre uma passagem das Metamorfoses de Ovídio (algumas vezes erradamente atribuída a Pitágoras), em que este poeta pôs o filósofo a exclamar:

“Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres animados, nutrir na sua substancia e no seu sangue o nosso corpo! para conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro? Porventura é mister que em meio de tantos bens que a melhor das mães, a terra, dá aos homens com tamanha profusão, prodigamente, se tenha ainda de recorrer à morte para o sustento, como fizeram ciclopes, e que só degolando animais seja possível cevar a nossa fome? […] É desumanidade não nos comovermos com a morte do cabrito, cujos gritos tanto se assemelham aos das crianças, e comermos as aves a que tantas vezes demos de comer. Ah! quão pouco dista dum enorme crime!”

A influência de Pitágoras foi tão notável, que até ao início do século XIX, qualquer indivíduo que se abstivesse de comer animais era denominado de pitagórico. Os seus discípulos foram numerosos em quase todo o mundo conhecido, especialmente na Grécia e em Itália. No sul de Itália, uma associação de 600 discípulos seus seguia todas as suas regras filosóficas e dietéticas com extremo rigor. [19] Os seus ensinamentos chegaram-nos através das biografias escritas por Jâmblico, Porfírio e Diógenes Laércio, assim como de outros fragmentos antigos de diversos autores. [20]

Outro filósofo pré-socrático que defendeu o vegetarianismo e os animais foi Empédocles de Agrigento (495/490-435/430 a.C.), que exortava a que se acabasse com a matança de animais. [21]

O filósofo grego Platão também defendeu o vegetarianismo nas suas obras, embora não o fizesse com base na consideração pelos animais: para ele a carne estava associada à luxúria e o vegetarianismo promovia a boa cidadania. Embora na obra platónica Sócrates tenha feito a apologia do vegetarianismo, o seu regime alimentar é incerto: se, por um lado ele comia pouco e do pouco que comia parece ter sido apenas alimentos do reino vegetal, por outro há registos que indicam que efectuou sacrifícios aos deuses. [22]

Mais tarde, Aristóteles, aluno de Platão, veio dizer, por seu turno, que o homem é superior à mulher, aos escravos e aos animais, que estes últimos são irracionais e que para eles é melhor estarem sob o domínio do homem. Infelizmente foram as ideias aristotélicas que predominaram no mundo ocidental durante séculos, e não as pitagóricas. No entanto, o filósofo e botânico grego Teofrasto (372-287 a.C.), que foi discípulo de Aristóteles, teve uma visão diferente: viu a matança e o consumo de animais como eticamente inaceitável, e foi vegetariano. [23]


IV. No tempo do Cristianismo

 Imagem

No primeiro século depois de Cristo voltamos a encontrar em Plutarco (46-126) páginas importantes em defesa do vegetarianismo, destacando-se o seguinte excerto:

“Chamas selvagens e ferozes outros carnívoros, os tigres, os leões e as serpentes, enquanto manchas no sangue as tuas mãos e em espécie alguma de barbárie lhes ficas inferior. E para eles, todavia, o assassínio é apenas o meio de se sustentarem; para ti, é uma lascívia supérflua. De facto, não são leões e lobos que nós matamos para comer como em defesa própria o poderíamos fazer – pelo contrário deixamo-los incólumes; e entretanto, aos inocentes, aos mansos, aos que não tem auxílio nem defesa, – a esses perseguimo-los e matamo-los, àqueles que a natureza parecia ter dado vida para sua beleza e graça…”

Houve ainda dois vegetarianos que se notabilizaram no primeiro século da era cristã e que é pertinente mencionar: Caio Musónio Rufo e Apolónio de Tiana (c. 3 a. C. – c. 97 d. C.). Este último, conforme nos conta o seu biógrafo, Flávio Filóstrato (c. 170), era um seguidor de Pitágoras, que não comia animais nem vestia nada que fosse derivado de animais mortos. Sabe-se que ele escreveu uma biografia de Pitágoras, entre muitas outras obras que não sobreviveram, pois “o seu nome foi intencionalmente “apagado” dos anais da história com o incêndio da biblioteca de Alexandria” e com a destruição de todos os livros inconvenientes após o Concilio de Niceia, em 325 d.C. Neste Concilio, os Evangelhos foram “adulterados e rescritos”, e, segundo G. J. Ouseley, os correctores até cortaram “minuciosamente dos evangelhos alguns ensinamentos do Nosso Senhor que eles não faziam tenção de seguir… nomeadamente no que dizia respeito a comer carne e a tomar bebidas fortes…” [24]

De facto, sabemos que, para além dos pitagóricos, no inicio do Século I certas religiões praticaram o vegetarianismo no tempo do Império Romano. Testemunho disto é-nos dado por Lúcio Aneu Séneca (4 a.C. 65 d.C.) ao explicar o facto de ter abandonado o regime vegetariano:

“Perguntais-me porque é que eu voltei atrás e abandonei esse sistema de vida? Ao que eu respondo que a sorte dos meus primeiros dias foi lançada no reino do imperador Tibério. Certas religiões estranhas tornaram-se objecto das suspeitas imperiais, e entre as formas de adesão aos cultos ou superstições estranhas, estava o de abstinência de carne dos animais.” (Epistola CVIII.)

Existem muitos autores que argumentam que os primeiros cristão praticaram o vegetarianismo e que Jesus foi vegetariano, sendo notável a este respeito a obra The Lost Religion of Jesus: Simple Living and Nonviolence in Early Christianity, de Keith Akers. De notar ainda que o peixe era o principal símbolo do cristianismo primitivo e servia de senha para os cristãos esconderem a sua identidade e evitarem as perseguições, simbolizando ainda Jesus: as letras da palavra Ictus, que significa peixe em grego antigo, são um acróstico de Iesous Christos Theou Uios Soter, o que quer dizer “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”. Nesta perspectiva, a multiplicação dos peixes, poderá simbolizar a propagação do cristianismo. Há quem defenda que nos primeiros manuscritos do Novo Testamento o milagre da multiplicação dos peixes era descrito com pão e fruta, sendo que o aparecimento do peixe se deu em manuscritos bíblicos posteriores ao século IV. [25] Há algumas passagens de obras antigas que têm interesse para a questão vegetariana. Segundo São Clemente de Alexandria (Tito Flávio Clemente, c. 150-220), o apóstolo Mateus alimentava-se apenas com alimentos do reino vegetal e nunca tocava em carne, e São Pedro declarou viver à base de pão e azeitonas, com a rara adição de ervas; e Hegésipo (citado por Eusébio) assegura que Tiago nunca comeu qualquer alimento animal, afirmação confirmada por S. Agostinho que disse que Tiago, o irmão do Senhor viveu à base de sementes e vegetais, e nunca de carne e vinho (Jacobus, frater Domini, seminibus et oleribus usus est, non carne nec vino). [26] Tertuliano referiu na Apologia (IX) que os cristãos se abstinham de “coisas estranguladas” e que para os pôr à prova se lhes oferece enchidos com sangue. Minucio Felix, no Octavius (XXX) referiu também que os cristãos tinham tanta aversão ao sangue humano que se abstinham do sangue dos animais. E São Jerónimo, admirador de Pitágoras, escreveu que nada é tão bom para jovens Cristãos como uma dieta de ervas. [27]

Alguns autores defendem ainda que Jesus foi Essénio. Ora, os Essénios foram uma antiga seita judaica, que existiu a partir do segundo século AC, sendo que reagiram ao excessivo abate de animais que eram feitos muitas vezes num só dia. Eles não matavam criaturas vivas, nem para sacrifícios e sustentavam-se com alimentos vegetais; diz-se que muitos deles viviam mais de 100 anos. [28] Acabaram por ser perseguidos e mortos pelos romanos.

Ainda, no Evangelho dos Ebionitas, provavelmente escrito no Século II, tanto Jesus como São João Baptista eram vegetarianos, embora não se saiba se este texto foi alterado para ir de encontro com as crenças dessa seita cristã primitiva. [29] Para além das muitas seitas cristãs primitivas que praticaram o vegetarianismo, também o fizeram inúmeros eremitas individuais, como por exemplo São Paulo, o eremita (c. 229-342), Santo António do Egipto (c. 251-356), Santo Hilarião (c. 291-371), Santo Macário, o Antigo (c. 300-390), São João do Egipto (c. 304-394). [30]

De resto, o Cristianismo primitivo, com raízes na tradição judaica, viu o não consumo de carne como um jejum modificado para purificar o corpo. Estas práticas, apesar de excluírem a carne dos animais, não podem realmente ser consideradas vegetarianismo, pois, para além de não serem movidas por motivos de compaixão e respeito pelos animais, não eram sequer baseadas no desejo de adquirir mais saúde física, muito pelo contrário: eram um sistema dietético pobre, limitado e desequilibrado, seguido com o fim de «castigar» o corpo e dominar a vontade, o que contrasta com o regime vegetariano propriamente dito, que não tem o intuito da mortificação corporal, mas sim de manter o vigor físico. Para além disso, muitos cristãos, apesar de excluírem o consumo de carne de animais terrestres, admitiam o consumo de peixe. Tertuliano (155-255 DC), Clemente de Alexandria e João Crisóstomo (347-407 DC) ensinaram que evitar a carne era uma maneira de aumentar a disciplina e a força de vontade necessárias para resistir às tentações, embora, para Clemente, evitar a carne não significasse evitar o peixe. Isto tornou as restrições dietéticas, como o não consumo de carne, muito comuns no comportamento cristão da época. E estas crenças foram transmitidas ao longo dos anos de uma forma ou de outra – por exemplo, a proibição de carne (excepto peixe) da Igreja Ca
tólica Romana nas sextas-feiras, durante a Quaresma. Houve, é claro, excepções de cristãos que praticaram o vegetarianismo por sentirem compaixão pelos animais, incluindo-se neste caso diversos santos.

A herança vegetariana de Pitágoras continuou viva nos escritos dos filósofos neo-pitagóricos. Plotino ( 205 -270), conforme nos conta o seu discípulo e biógrafo Porfírio (c.232- c.304) recusava medicamentos que contivessem qualquer substancia retirada de animais selvagens ou repteis e não aprovava o consumo da carne de animais. Quanto a Porfírio, ele foi sem duvida um dos vegetarianos mais importantes da antiguidade, a julgar pelas obras que chegaram até nós. Numa carta de Constantino, escrita após o Concilio de Niceia, e preservada por Sócrates, o historiador, esse imperador diz que os “escritos ímpios” de Porfírio, “inimigo da verdadeira piedade” foram destruídos; e mais tarde, as obras que sobreviveram foram abolidas por Teodósio. [31] Felizmente, nem tudo ficou perdido, e entre os seus escritos que nos chegaram estão, para além da biografia de Plotino, uma Vida de Pitágoras e a obra Da Abstinência do Alimento Animal (De abstinentia ab esum animalum). Nessa obra, composta por quatro livros, ele defendeu que o regime carnívoro não é adequado a uma vida filosófica e criticou o sacrifício de animais, argumentando que estes merecem um tratamento justo [32]

Com a propagação e estabelecimento do Cristianismo, surgiram ideias de supremacia humana sobre todas as criaturas, mas muitos grupos não ortodoxos não partilharam desta visão. Desde então, no decorrer da Idade Média, todos os seguidores das filosofias que fossem contra o abate e abuso dos animais, ou que praticassem o vegetarianismo, que estava associado a cultos não católicos, eram considerados fanáticos, hereges e frequentemente perseguidos pela Igreja e queimados vivos. Destacam-se os Bogomilos, seita dualista gnóstica surgida na Idade Média. Eles não comiam carne por motivos religiosos. [33] Foram perseguidos como hereges pela inquisição medieval. No entanto, conseguiram escapar a este terrível destino alguns notáveis vegetarianos cristãos: Santo David (Santo Padroeiro de Wales), São Simão Stock (c. 1165-1265), São Richard de Wyche (ou Richard of Chichester) (c. 1197-1253), entre outros; e algumas ordens religiosas até aconselhavam o não consumo de carne, não por compaixão para com os animais, mas, novamente, como forma de controlar as tentações corpóreas. Uma das ordens que subsistiam apenas com alimentos do reino vegetal foi a Ordem do Carmo. [34] Outra, fundada em 1093, foi a ordem dos monges Trapistas, que praticavam a abstinência ascética da carne como uma privação com o fim de dominar as paixões. Não tinham qualquer motivação ética, filosófica ou nutricional, portanto, para sustentar os seus mosteiros, faziam criação e vendiam bezerros para consumo, os quais eram um «derivado» da sua indústria de queijos. [35] Mesmo São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como um patrono dos animais, não foi vegetariano, tal como não é vegetariana a ordem por ele fundada; embora tenham havido muitos indivíduos franciscanos que foram de facto vegetarianos.

De resto, o mundo medieval considerava que os vegetais e cereais eram comida para os animais. Somente a pobreza compelia as pessoas a substituírem a carne pelos vegetais, o que acontecia na maior parte dos casos. Uma grande percentagem da população europeia alimentava-se com alimentos do reino vegetal, sendo a carne e o peixe reservados para raras ocasiões especiais. A carne era o símbolo de status da classe alta. Quanto mais carne uma pessoa pudesse comer, mais elevada era a sua posição na sociedade. Os reis e a nobreza, na sua maioria, não dispensavam o consumo de animais. Então, nas ocasiões importantes davam-se autênticas hecatombes em nome da gula, sendo sacrificados diversos tipos de animais para um único festejo: vacas, carneiros, porcos, galinhas, patos, pavões, etc. Durante o extenso período da Idade Média, devido a vários motivos, pouca literatura nos chegou em defesa do vegetarianismo ou dos animais.


V. No Renascimento

 Imagem

No início da era renascentista, a ideologia vegetariana surgiu como um fenómeno raro. A fome e as doenças imperavam, enquanto as colheitas falhavam e a comida escasseava. A carne era muito pouca e um luxo apenas para os ricos. Foi durante este período que a filosofia clássica (greco-romana) foi redescoberta. O Pitagorismo tornou-se novamente uma grande influência na Europa. Começaram, portanto, a surgir indivíduos ligados a essa filosofia que fizeram a apologia do vegetarianismo, como por exemplo Marsilio Ficino (1433-1499), filósofo neo-platónico italiano, que foi autor da Theologia platonica (1474), mestre de Giovanni Pico della Mirandola e de Angelo Poliziano, tradutor de obras de Platão, de Plotino e de outros filósofos da Antiguidade, e fundador da Academia Platónica de Florença. Outro vegetariano notável da Itália renascentista foi Leonardo da Vinci (1452-1519). Quando, em 1516, um viajante italiano descreveu um povo da Índia a Giuliano di Lorenzo de’ Medici, informou que eles “não se alimentam com nada que contenha sangue, nem permitem que se magoe alguma coisa viva, tal como o nosso Leonardo da Vinci.” Vasari conta-nos que Leonardo comprava pássaros para depois os libertar, e Tommaso Masini (1462-1520), seu colaborador, não matava uma mosca, fosse por que razão fosse, e preferia roupas de linho para não vestir uma coisa morta. [36] O médico, antiquário e matemático italiano Marco Fabio Calvo (c. 1440-1527) foi também um conhecido vegetariano daquele tempo. [37]

Na literatura ressurge a compaixão pelos animais nos escritos de alguns autores, como Thomas More (1478-1536) e Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592). Este último ousou pôr em causa a suposta superioridade do homem em relação aos outros animais, concluindo: “Está ainda por se estabelecer a quem cabe a culpa de não nos entendermos, pois se não penetramos o pensamento dos animais, eles tampouco penetram os nossos e podem assim achar-nos tão irracionais quanto nós os achamos a eles.” (Apologia de Raimond Sebond).

Houve ainda algumas ordens religiosas que praticaram o vegetarianismo, como por exemplo a Ordem do Mínimos, fundada por São Francisco de Paula (1416-1507), o qual não consumia carne, lacticínios ou ovos e era extremamente compassivo com os animais.[38]

O Renascimento foi ainda a época da expansão marítima. Os navegadores europeus entraram em contacto com os povos vegetarianos da Índia, que mostravam ter extraordinária compaixão em relação aos animais. A literatura desse tempo menciona com frequência os brâmanes e os baneanes, que não comiam carne nem peixe, que compravam animais para os libertarem, que mudavam de caminho para não pisarem formigas e que tinham hospitais para cuidarem de animais doentes ou aleijados.

Ao mesmo tempo, os navegadores depararam-se com os indígenas do Brasil, que “não lavram, nem criam. Aqui não há boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. Não comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.” [39]

Entretanto, com a sangrenta conquista de novos territórios que se foi dando, novos vegetais foram introduzidos na Europa, tais como as batatas, a couve-flor e o milho. A adopção destes novos alimentos trouxe imensos benefícios à saúde, ajudando a prevenir doenças dermatológicas, que eram na altura muito frequentes. Não obstante os alimentos de origem vegetal serem a base da alimentação da maior parte da população da Europa, as classes ricas do alto renascimento empanturravam-se em exuberantes banquetes, com vários alimentos de origem animal. Luigi Cornaro (1465-1566), que recuperou a saúde depois de ter abandonado estes banquetes, passando a alimentar-se com grande sobriedade, escreveu: “Oh Itália miserável e infeliz! Não consegues ver que a gula mata todos os anos mais dos teus habitantes do que poderias perder com a praga mais cruel ou pelo fogo e espadas de muitas batalhas?”. Pouco depois, Leonardi Lessio (1554-1623), higienista belga, determinado a imitar Cornaro, fez igualmente a apologia da sobriedade. [40]

Por todo o mundo vozes erguiam-se a favor do vegetarianismo. Na Alemanha, Heinrich Cornelius Agrippa (1486-1535), escritor, filósofo e alquimista, aconselhava uma dieta como a de Pitágoras e dos Brâmanes. [41] Para o filósofo alemão Jacob Boehme (1575-1624), que escreveu sobre a relação do homem com o universo, matar animais para comer significava erguer barreiras entre a alma e Deus. [42] Em Inglaterra, o Dr. Thomas Moffet (m. 1601) perguntava se olhos humanos e educados poderiam suportar o massacre de animais inocentes, que só talhantes insensíveis conseguem ver. [43] E fora da Europa, no final do período Renascentista, o reverendo Chu-Hung (1535-1615) promovia o budismo e o vegetarianismo ético na China.[44]


VI. No Século XVII

 Imagem

No século XVII, o filósofo francês René Descartes (1596-1650) generalizou a ideia de que os animais são meros autómatos sem sentimentos. Descartes e os seus seguidores não viam problema em usar e comer animais (embora ele preferisse a dieta vegetal por motivos de saúde), o que deu origem a verdadeiras atrocidades, nomeadamente a vivissecção. É claro que a teoria de que os animais não sentem nem pensam, teve a oposição de vários pensadores, como La Fontaine, Spinoza, Bayle, Voltaire e Margaret (Lucas) Cavendish, a Duquesa de Newcastle. [45] E a defesa do vegetarianismo continuou presente com Pierre Gassendi (1592-1655), o filósofo e cientista francês, e com o naturalista inglês John Ray (1627-1705), que defenderam que o ser humano não foi feito para comer animais, pois não é dotado de garras e dentes afiados, entre outras características comuns aos animais que comem carne; ambos referiram ainda a repugnância que o ser humano sente face ao cheiro e à textura dos cadáveres dos animais. Sir Thomas Browne (1605-1682), outro eminente homem das ciências, escreveu que “não existe absolutamente nenhuma necessidade de nos alimentarmos com quaisquer animais.” [46] Mas não só vultos da ciência se inclinaram para o vegetarianismo. O grande poeta épico inglês John Milton (1608-1674) recomendou a todos aqueles que aspirem nobres criações poéticas, uma dieta como a de Pitágoras. [47] Destacam-se ainda as páginas favoráveis ao vegetarianismo da autoria de Abraham Cowley (1618-1667) e John Evelyn (1620-1706).

Não se conhecem muitos indivíduos que, no século XVII tenham de facto praticado o vegetarianismo. Sabe-se que foram vegetarianos Thomas Bushell (1594-1674), discípulo de Francis Bacon (que via o vegetarianismo como um dos ingredientes para a longevidade), e Roger Crab (1621-1680), que encarava a carne como um símbolo do poder, e a abstenção como um acto de solidariedade para com os oprimidos. Mas o vegetariano mais influente do século XVII foi Thomas Tryon (1634-1703), um autor e comerciante inglês, que foi pacifista, opositor da escravatura, ambientalista e vegetariano, cujos livros tiveram um sucesso estrondoso e levaram inúmeras pessoas a adoptarem o regime vegetal. Existiram, inclusive, comunidades de “Tryonianos” em Inglaterra e na Pensilvânia. Ele influenciou pessoas como Aphra Behn, Benjamin Lay, Benjamin Franklin, James Graham, Joseph Ritson, Percy Shelley, Lewis Gompertz e John Williamson. Franklin, que durante a adolescência seguiu a dieta vegetariana recomendada por Tryon, contou que isso lhe possibilitou poupar dinheiro (que utilizou para comprar livros) e fazer progressos nos estudos “devido a essa maior clareza de discernimento e a maior facilidade de aprender que habitualmente se consegue, mediante a temperança no comer e no beber.” [48] O livro de Tryon intitulado A Bill of Fare of 75 Noble Dishes of Excellent Food (1691), foi provavelmente o primeiro livro de receitas inteiramente vegetarianas.

Foi neste século que o sapateiro inglês George Fox (1624-1691) fundou os Quakers ou Sociedade dos Amigos, uma comunidade independente que, para além de ter defendido a abolição da escravatura, a igualdade de direitos, e de ter recusado o uso da força, abominou a crueldade para com os animais e muitos dos seus membros praticaram o vegetarianismo. Tendo-se refugiado na América, eles fundaram o estado da Pensilvânia.


VII. No Século XVIII

 Imagem

Com o Iluminismo do século XVIII, emergiu uma nova perspectiva do lugar do Homem na ordem da criação. Argumentos de que os animais são criaturas inteligentes e sensíveis começaram a ser ouvidos e objecções morais a serem colocadas, à medida que aumentava o desagrado pelo desrespeito e abuso dos animais.

Foi também um período em que surgiram, em diversos países, médicos a favor do vegetarianismo, como por exemplo o escocês George Cheyne (1671-1743), que teve muito êxito ao curar os seus pacientes através de uma alimentação sem carne; o italiano Antonio Cocci (1695-1758), professor de medicina e de filosofia na Universidade de Florença e autor do livro A Dieta Pitagórica (1743), no qual, partindo das doutrinas de Pitágoras, defendeu o vegetarianismo; e o francês Philippe Hecquet (1661-1737), que, num livro publicado em 1700, considerou, “incrível a soma de prejuízos que se deixaram trabalhar em favor da carne, quando tantos factos se opõem à pretensa necessidade do seu uso.” [49] Parece que a sua obra foi influente, pois até Voltaire escreveu, no Dicionário filosófico: “A obra de Porfírio sobre a abstinência de carnes animais, escrita pelo meado do nosso terceiro século, é muito estimada dos eruditos mas não fez mais discípulos entre nós que o livro do médico Hecquet.”

Também nas religiões ocidentais houve um ressurgimento da ideia de que, na realidade, o consumo de carne era uma aberração e ia contra a vontade de Deus e contra a genuína natureza da humanidade. Emanuel Swedenborg (1688-1772), cientista, místico cristão, filósofo e teólogo suíço, viu o consumo de carne como fonte de todo o mal. Ele teve inúmeros seguidores em todo o mundo, entre os quais William Blake e Johnny Applessed. Grupos de cristãos vegetarianos começaram a fixar-se nos Estados Unidos, destacando-se a comunidade religiosa de Ephrata, que foi fundada em 1732, na Pensilvânia, por Johann Conrad Beissel, praticante do veganismo. [50] Guillaume-Thomas Raynal escreveu ainda sobre os dumplers, uma seita religiosa de Alemães na Pensilvânia, que se alimentavam com vegetais, porque viam a abstinência da carne como estando mais em conformidade com o espírito do cristianismo, o qual tem uma aversão ao sangue.[51] Igualmente na Pensilvânia, Benjamin Lay (1681-1760), filósofo, filantropo e abolicionista Quaker, não usava nada que tivesse custado a vida aos animais ou que fosse feito por escravos.

Nesses dias, os métodos de abate eram extremamente bárbaros. Os porcos eram chicoteados até à morte com cordas cheias de nós para tornar as carcaças mais tenras, e os pescoços das galinhas eram golpeados, para depois serem penduradas e deixadas a sangrar até morrer.

Assim, grandes filósofos e poetas como Bernard Mandeville, Voltaire, Jean-Jacques Rousseau, John Gay, Alexander Pope, James Thomson, Oliver Goldsmith, John Hawkesworth e William Paley questionaram a inumanidade do Homem em relação aos animais e reflectiram sobre o consumo de carne. Logo em 1714 temos Bernard Mandeville (1670-1733), a escrever na sua The Fable of The Bees: or, Private Vices, Publick Benefits:

“Eu não posso compreender com um homem, que não está inteiramente endurecido e habituado à vista do sangue e do massacre, possa assistir sem remorso ao massacre de animais como o boi e o carneiro, nos quais o coração, o cérebro, os nervos, diferem tão pouco dos nossos, e cujos órgãos dos sentidos, e por consequência do coração, são os mesmos que no ser humano.”

Em Inglaterra, Alexander Pope (1688-1744), poeta inglês, opositor da crueldade para com os animais, escreveu que não conhecia “nada mais repelente do que o aspecto de uma das suas cozinhas cobertas de sangue onde se ouvem os gritos dos seres que expiram em torturas.” John Hawkesworth (1715-1773), escritor e editor inglês, numa edição das obras de Jonathan Swift, afirmou que só o hábito nos permite suportar as carcaças que cobrem a mesa diariamente [52]; e James Thomson (1700-1748), o poeta escocês (autor da letra de Rule, Britannia!), criticou, no seu célebre poema The Seasons, a selvajaria dos matadouros e do consumo de carne. [53] Voltaire, por sua vez, escreveu frequentemente, tanto acerca de vegetarianismo como de direitos dos animais em diversas obras, como Éléments de la philosophie de Newton (1738), Essai sur les moeurs et l’eespirit dês nations (1753), Traité sur la tolérance (Tratado sobre a tolerância) (1763), Dilogue du chapon et de la poularde (Diálogo do frango e da franga) (1763), Dictionnaire philosophique (Dicionário filosófico) (1764), La Princesse de Babylone (A Princesa da Babilónia) (1768), Les Lettres d’Ambed (1769), Il faut prendre paarti (1772). No Dicionário Filosófico ridicularizou a perspectiva cartesiana de que os animais são autómatos:

“Bárbaros agarram esse cão, que tão prodigiosamente vence o homem e