Será mesmo que "84% dos veganos e vegetarianos voltam atrás na sua decisão e voltam a comer carne"?

Será mesmo que “84% dos veganos e vegetarianos voltam atrás na sua decisão e voltam a comer carne”?

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Quando em 2014 a Faunalytics investigou a recaída do veganismo, ninguém poderia prever como este estudo viria a dominar a agenda e ficaria na cabeça daqueles que trabalham para (e contra) a protecção animal. No entanto, este estudo que conseguiu moldar a estratégia das principais Organizações Não Governamentais (ONGs)s e conquistar o público, não contou a história toda.

Este estudo, de uma organização bem conhecida e respeitada fundada em 2000, que suporta grupos de defesa de animais com as suas investigações rígidas, tornou-se viral. Até autores como Hal Herzog elogiaram este estudo, alegando que mostrava que os activistas pelos animais deveriam advogar pela redução do consumo de carne, e não pela redução.

Esta investigação continua a ser usada para apoiar várias abordagens veganas, que apelam à redução e ao fomento da alimentação de hoje em dia; por exemplo, a nova campanha do Reino Unido Middle Ground baseia-se abertamente neste estudo para apoiar aqueles que se preocupam com os animais, mas que não estão dispostos a deixar de os consumir.

Nós não recomendamos o extremismo pedido por parte dos activistas” diz Jo Anderson, o diretor da investigação Faunalytics, “pois promove a ideia de que qualquer vegano iniciante falha se “escorregar” uma única vez ou mesmo se não conseguir atingir o objectivo, em vez de promover o orgulho e a motivação contínua na quando o objectivo é conseguido a 99%.”

Tal como explica Anderson, se a investigação mostra que um em cada oito americanos experimentou a alimentação vegetariana, mas que apenas 2% dos americanos se identificam como veganos ou vegetarianos, então precisamos de nos focar mais na adesão ao veganismo do que a adesão das pessoas a diferentes tipos de alimentação. E diz-nos ainda que uma abordagem extremista ou abolicionista por parte dos activistas é muitas vezes o motivo pelo qual as pessoas que experimentam a alimentação vegana voltam a comer produtos de origem animal, sejam lacticínios ou carne. Anderson diz que descobriu este “facto” ao investigar qualitativamente o veganismo: descobriu que, se o veganismo for uma questão de “conseguir ou não conseguir”, então um pequeno deslize pode levar à desistência.

Mas será que podemos confiar neste estudo?

Houve muitas críticas a este estudo – e ao número 84%, indicado  como a taxa de “desistentes” -, o que nos leva a questionar se podemos de facto usar estes dados para divulgar o veganismo actualmente.

O veganismo é apenas uma alimentação? (o estudo limitou-se a investigar a parte alimentar do veganismo). Podemos chamar vegano a uma pessoa que experimentou esta alimentação apenas uma vez em três meses? E se sim, a grande maioria destes “veganos” e “vegetarianos” de facto desistem desta alimentação, ou “vão e voltam” a esta “aventura”? E se sim, o que é que isso implica para os activistas e ONGs? Será que precisam de reformular a forma como tentam convencer as pessoas a mudar os seus estilos de vida?

“Antes de podermos abordar estas questões com estudos, precisamos de perceber o que é que considerarmos ser eficaz.”, argumenta Anderson.

Ou seja, existem maneiras diferentes de definir eficácia, e manter uma alimentação vegana ou vegetariana “pura” essa mesma definição; no entanto, outra importante lição a tirar deste estudo de 2014 é a importância de apoiar os esforços para reduzir o consumo de produtos de origem animal, apoiar o semi-veganismo, o flexitarianismo e quaisquer outros tipos de alimentação que reduzem o sofrimento animal.

Por exemplo, um dos resultados deste estudo foi que os veganos que desistiram a sua alimentação “puramente” vegan ou vegetariana, continuaram mesmo assim a redução do consumo de produtos de origem animal, principalmente da carne; e que 37% dos que tentaram esta alimentação pelo menos uma vez estavam dispostos a dar-lhe uma segunda chance, tendo por razão principal a saúde.

Uma das outras descobertas polémicas foi que a maioria daqueles que desistiram desta alimentação tiveram pouco ou mesmo nenhum apoio por parte dos seus conhecidos vegetarianos. Talvez essa seja uma das razões pelas quais o modelo Desafio 22+ (com mentores) está a mostrar ser eficaz.

No entanto, estes números já não foram tão divulgados quanto os anteriores.

Vamos pensar nas motivações

Este argumento contra o “extremismo” dos activistas, e em favor do apoio a outros tipos de alimentação como o flexitarianismo, as Segundas sem carne e até mesmo o Veganuary, abala alguns activistas veganos que o consideram como um enfraquecimento daquilo que é a mensagem vegana, e até uma traição aos animais que sofrem para que alguns alimentos sejam produzidos.

“A crítica a este estudo vem principalmente da perspectiva extremista”, diz Tobias Leenaert, o autor de Como criar um mundo vegan, “que parece não querer acreditar, ou que queria ver neste estudo uma confirmação da defesa dos direitos dos animais.”

Quando este estudo foi publicado, Leenaert debruçou-se bastante sobre as suas conclusões, argumentando que: é muito fácil dizer que as pessoas devem ser motivadas por razões éticas, mas ser movido por razões éticas não é necessariamente fácil. O senso comum diz que é mais eficaz formular a nossa mensagem de maneira a que esta se ligue a valores que as pessoas já têm (saúde, ambiente), em vez de tentar que as pessoas adoptem os valores que gostávamos que elas tivessem. As pessoas que adoptam o veganismo por razões de saúde ficar sensibilizadas com a razão dos direitos dos animais, certo?

O argumento de Leenaert é que se os activistas veganos usarem apenas o veganismo “puro” ou os direitos dos animais como motivações para encorajar as pessoas a tornarem-se veganas, então a mudança irá acontecer de forma mais lenta. Mesmo concordando com o estudo que alega que quando motivadas pelos direitos dos animais, as pessoas tendem a manter-se veganas, Leenaert questiona: e se houver menos pessoas a ser veganas por essa razão, porque não tentamos motivá-las com a outras razões – a saúde, meio-ambiente, etc ?

Precisamos de nos perguntar especificamente como podemos ajudar as pessoas a manter a sua alimentação, e um novo estudo da Faunalytics irá tentar responder a essa questão. Entretanto, temos sugerido esta questão a outras organizações, mas ainda não houve muita investigação este sentido. 

As investigações mais recentes ainda são inconclusivas, e precisam de pesquisar mais a fundo se quisermos melhorar o nosso activismo pelos animais e desenvolver uma sociedade vegana. Então, será mesmo que 84% dos veganos desistem desta alimentação, ou, como argumentam alguns, é provável que este número seja muito menor?

Debrucemo-nos sobre algumas da problemáticas:

Vegetarianos são diferentes de veganos

Talvez uma das maiores falhas neste estudo seja a falta de distinção entre vegetarianos e veganos ao concluir os “factos”

Qualquer pessoa que tenha mudado de vegetariano para vegano sabe que que a lista das compras não muda muito em termos de quantidade, mas sim em termos de qualidade. Até Anderson descobriu isso na sua transição de vegetariano para vegano: “consegui ser feliz ao ser vegetariano por vários anos – mas de facto evitava ler informação sobre as indústrias dos ovos e do leite”.

Os lacticínios continuam a ser um “bloqueio” para muitos que fazem a mudança de alimentação – escreve o Dr. Barnard no seu livro A Armadilha de Queijo – mesmo sendo a indústria dos lacticínios vista por muitos como ainda mais exploradora do que a indústria de carne bovina ou outros produtos animais.

Está claro que tanto a identidade como o dia-a-dia dos vegetarianos é muito diferente da dos veganos. Para que uma investigação significativa leve a estratégias de activismo eficazes, é preciso identificarmos essas diferenças. Anderson diz mesmo que irá estudar não só a percentagem de pessoas que se mantêm veganas ao longo do tempo, mas também aquelas que continuam com uma alimentação com pouca carne.

Este estudo confunde veganismo com dieta vegetariana

Na verdade, não são os vegans, mas sim os adeptos de uma alimentação vegetal quem está a “falhar”. Se argumentarmos que o veganismo é um compromisso ético de oposição à exploração dos animais, então o veganismo é uma acção mais sólida do que esta investigação diz ser.

No estudo da Faunalytics, 58% daqueles que desistem da alimentação vegetariana, experimentaram-na por razões de saúde. Já isto por si só refuta o argumento de Cole: se estas pessoas adoptam esta alimentação por questões de saúde, então não são veganas, apenas têm uma alimentação 100% vegetal – o que não é a mesma coisa. E, se com esta alimentação as pessoas não conseguirem atingir os objectivos de saúde esperados, procuram uma nova alimentação. 

Mas, por exemplo, a campanha Veganuary fala do veganismo apenas como uma alimentação ao focar o seu kit de iniciante exclusivamente em alimentação e não falando da parte das roupas ou entretenimento, por exemplo.

No entanto, e continuando o nosso argumento, os veganos, aqueles que se opõem a toda a exploração animal (e não apenas adeptos de uma alimentação de base vegetal), esses são muito mais “resistentes” e menos propensos a abandonar esta alimentação. Por isso é que é importante continuar a discutir o significado de “veganismo” e insistir na sua relação com a justiça social.

Para este estudo não foi usada uma amostra justa

Esta foi a conclusão do estudo Epic-Oxford que se debruçou sobre a motivação e a resiliência dos veganos em relação à sua alimentação.  

O estudo da Faunalytics que temos estado a analisar, teve como amostra 11.420 norte-americanos. Já a investigação qualitativa para responder à pergunta de quantos veganos e vegetarianos abandonam esta alimentação teve uma amostra ainda menor: apenas 1387 pessoas. Embora estas amostras sejam razoáveis em termos de quantidade, elas fazem com que este estudo esteja longe de poder ser considerado uma grande pesquisa realmente capaz de responder à pergunta de partida. Por exemplo, o estudo EPIC-Europa, por sua vez, estuda também as escolhas alimentares das pessoas (e os resultados de saúde consequentes) mas com 521.000 pessoas de dez países europeus.

Se olharmos para o estudo Epic-Oxford, podemos tirar conclusões muito diferentes: quase 3/4 dos participantes vegetarianos ou veganos que o eram em 1990, continuavam a sê-lo quando lhes foi perguntado novamente em 2010 – ou seja, 73%. E a taxa de abandono era de 15% após 5 anos, e 27% após 15 anos.

As perguntas feitas de maneira errada…?

Ora, isto pode explicar porque o estudo Faunalytics chegou a conclusões tão surpreendentes. 

Vamos por partes: esta investigação procurou saber o alcance do veganismo e vegetarianismo na população dos EUA. Quando colocas as coisas assim, podemos dizer que este estudo chegou a conclusões reais, tais como: quase 30 milhões de pessoas nos EUA já experimentaram esta alimentação; o vegetarianismo tem uma reputação positiva; as pessoas têm mais sucesso no processo de se tornarem veganas do que, por exemplo, em dietas para perder peso ou tentativas de deixar de fumar; mais de três quartos dos ex-vegetarianos e veganos não se preocupavam com os impactos que a sua alimentação estava a ter na sua saúde. Mas mesmo assim, o estudo mostra uma tendência para o abandono desta alimentação

É perguntado às pessoas omnívoras se alguma vez experimentaram uma alimentação estritamente vegetariana, e aos que respondem sim, é-lhes perguntado, por exemplo, se acharam complicado ou demorado cozinhar estas refeições, se foi difícil encontrar restaurantes com estas opções, se acharam o período de transição difícil, etc. A estas perguntas, os entrevistados só podiam responder sim ou não, o que só por si já compromete a veracidade do estudo.

Ainda na lógica do “sim ou não”, foi-lhes perguntado também se sentiram falta de comer carne, se estavam aborrecidos ou confortáveis com esta alimentação, etc. De facto, estas são perguntas que tocam nos pontos críticos: sentir-se excluído das opções dos restaurantes é algo que infelizmente acontece. E este estudo fez essas questões críticas a pessoas omnívoras que experimentaram o veganismo apenas durante algum tempo.

Se nos lembrarmos do estudo Epic-Oxford, de facto a taxa de desistência é muito diferente. Mas, por outro lado, os estudos de alimentação, são por si só problemáticos. Por exemplo, noutro estudo lemos que 27% dos que se dizem vegetarianos, comeram carne nas últimas 24H. Com isto vêm as críticas ao Epic-Oxford: talvez a taxa de desistência mais baixa se deva ao facto de que as pessoas não consideram o “comer carne” como desistir do veganismo.

Será que foi a comunicação social?

Como sabemos, a comunicação social costuma captar apenas os elementos mais polémicos e controversos da cada história. Mas neste caso, também foi a própria investigação que pecou ao usar uma linguagem tendenciosa. Porém, experimentar o veganismo “pelo menos 3 vezes” não faz de ninguém vegano, e portanto usar estas pessoas como amostras não está certo.

Será que as respostas foram para dar à resposta ao que na altura andava na boca das pessoas?

O Faunalytics sugere que o foco na redução em vez de eliminação, e na adesão em vez de adopção permanente, pode ser mais eficaz do que outras estratégias de activismo. O que este estudo tem procurado fazer é incluir as pessoas que apenas reduzem o consumo de carne naquelas que se preocupam com o aquecimento global.

Será que foi uma tentativa altruísta de definir “eficácia”?

Ora bem, organizações como a Faunalytics têm tentado obter um estatuto de organização filantrópica – e assim ser elegível a doações -, daí apostarem em investigações inclusivas, contra o extremismo e que tenham resultados que impactem o público.

Um problema de representação

A escolha dos termos usados nas perguntas da investigação impacta obviamente os resultados da mesma.

A Faunalytics trata a adesão ao veganismo como a conversão a uma religião, personalizando e individualizando este processo. No entanto, é um grande feito conseguirmos manter-nos veganos tendo em conta a variedade de produtos de origem animal com que somos confrontados todos os dias.

Neste sentido, um slogan como “84% dos veganos desistem desta alimentação” não faz juz à realidade. Em vez deste, o título da investigação deveria ser “contra todas as probabilidades, 16% dos veganos vencem a batalha e conseguem manter a sua saúde física e mental”! Ou soaria ainda melhor se em vez de 16% fosse “85% dos veganos e vegetarianos conseguiram manter as suas escolhas éticas ao longo de 20 anos numa sociedade carnista”?

Fonte: Plant Based News

Artigo traduzido por Daniela Pereira.

A autora escreve segundo a antiga ortografia.

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