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O consumo de carne ao longo da História Ocidental

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AVP - Associação Vegetariana Portuguesa | O consumo de carne ao longo da História Ocidental

Um olhar sobre a carne ao longo da História Ocidental – investigadores examinaram 200.000 anos da História Ocidental para entender os vários impactos da carne na cultura Ocidental.

A relação dos humanos com a carne tem evoluído desde que começámos a caçar animais há centenas de milhares de anos. Neste estudo, dois investigadores dos EUA e do Canadá examinaram cerca de 200.000 anos da História Ocidental para tentar entender a nossa complexa relação com a carne e os animais. Neste resumo, vamos olhar para as três áreas do seu estudo – o impacto cultural da carne, o impacto ambiental e a relevância nutricional. 

Há cerca de 200.00 anos atrás, não havia evidência de pecuária. Os humanos começaram a caçar animais do nosso tamanho ou ainda maiores que nós. Estes grandes animais conseguiam fornecer mais carne do que qualquer família conseguiria comer, por isso as pessoas partilhavam com os outros à sua volta. Ora, partilhar uma refeição comunitária deu um significado cultural à carne, e com o tempo, esta relação entre carne e cultura foi-se tornando mais complexa. 

Do ponto de vista ambiental, isto acabou por começar uma longa e prejudicial relação entre os humanos e o meio-ambiente. Os humanos mataram mais animais do que precisavam para comer, o que levou à extinção em massa de muitos animais de grande porte. Os humanos também incendiaram pastagens para controlar o movimento dos rebanhos de animais, o que mudou a paisagem e os habitats de outras espécies. Nutricionalmente, os humanos não dependiam da carne, e os registos fósseis mostram que eles comiam principalmente dietas vegetarianas antes desta época.

A Domesticação

Desde 10.000 até 4.500 anos atrás, os humanos começaram a “domesticar” as plantas e os animais. Desde o início, essas práticas foram causando graves danos ao ambiente. A pecuária exigia uma quantidade significativa de terra – por exemplo, a terra necessária para 30 pessoas, 40 vacas e 40 cabras ou ovelhas era de cerca de 5,76km2. As pessoas foram cortando florestas para obter terrenos, o que levou à erosão do solo. E para manter os seus rebanhos seguros, as pessoas caçavam outros predadores até à extinção. Morar perto dos animais também aumentou as chances de contrair doenças como varíola, malária, tuberculose, sarampo e gripe. Durante esta época, o uso da carne como uma barreira cultural começou a desenvolver-se. Os porcos tornaram-se um tabu no Egipto, e a carne de camelo tornou-se um tabu no Médio Oriente. Isso criou uma separação cultural entre as pessoas que comiam certos tipos de carne e as que não comiam.

De 2500 aC a 550 dC, as pessoas começaram a construir centros urbanos maiores, que exigiam grandes explorações agrícolas para as sustentarem. Os agricultores conseguiam cobrar altos preços pela carne, e possuir animais tornou-se assim um símbolo de riqueza. Na Roma antiga, os imperadores romanos davam aos cidadãos carne de porco como símbolo do seu privilégio. Em Israel, os hebreus queriam-se distanciar culturalmente dos egípcios, que adoravam animais; recusaram-se a comer carne de porco por questões culturais, e essas restrições alimentares criaram uma barreira entre as pessoas que comiam porco e as que não comiam. Para além disso, a pecuária causou danos às terras agrícolas – o livro do Genesis faz referência aos perigos do exagero da pecuária. Os hebreus raramente comiam carne e, quando o faziam, era principalmente carne de animais mais velhos ou que não produziam nada. Na Grécia antiga, as pessoas consumiam de 2 a 4 moedas de carne por ano, principalmente em festas, eventos políticos ou cerimónias religiosas.

Da Idade Média ao Renascentismo

De 476 dC a 1800 na Europa, o significado cultural da carne continuou a evoluir. Os cristãos abstiveram-se de comer carne às Sextas-feiras e durante a Quaresma, o que criou uma barreira cultural entre os cristãos e outros grupos religiosos. A carne também era usada para separar a aristocracia e a classe média dos criados. Os médicos afirmavam que havia diferenças fisiológicas entre estas classes: a carne não era, diziam os médicos, saudável para os criados, que deviam, em vez disso, comer vegetais. A desflorestação e o excesso de pasto continuaram. Mesmo assim, a carne não era uma fonte primária de alimento para a maioria das pessoas durante grande parte da idade média.

Nos séculos XVI e XVII, a Inglaterra precisava de mais terrenos para alimentar a sua população urbana, que estava a crescer – e especialmente por causa dos danos ambientais causados pelos excessos da pecuária. A ideia de colonizar a América do Norte foi impulsionada principalmente pelo desejo de mais terra, e os colonizadores conseguiram essa terra ao expulsar os povos indígenas. Embora apenas metade da população da Inglaterra conseguisse comprar carne, os colonizadores de Chesapeake, na Virgínia, comiam quase 150 libras de carne por pessoa por ano. Como a carne estava intimamente ligada à riqueza, os colonizadores sentiam-se assim superiores às pessoas na Inglaterra.

À medida que mais emigrantes iam para os EUA no século XVIII, o valor cultural da carne foi sendo usado para alimentar o racismo. Os emigrantes idos da China comiam mais arroz do que carne, e os emigrantes da Irlanda comiam mais batatas. A falta de consumo de carne destes grupos de estrangeiros fez com que os norte-americanos os considerassem inferiores. Enquanto isso, a pecuária foi tendo efeitos ambientais semelhantes na América do Norte e na Europa: os animais eram caçados e expulsos dos seus habitats, os solos rapidamente chegaram à exaustão e ficaram sem minerais. 

No período moderno


Em 1870 um boi conseguia pastar em 20m2; em apenas 10 anos, esta terra necessária para um boi aumentou para 200 – 360 m2, devido aos danos causados pela pecuária. As vacas e os porcos destruíram as fontes de alimentos dos povos indígenas, e  também disseminaram junto destes povos a tuberculose e gripe. Durante a década de 1900, o governo dos EUA e os médicos afirmavam que a alimentação com carne fornecia mais força do que a alimentação vegetariana. Em 1927, uma revista publicada pela American Medical Association chamou aos vegetarianos “extremamente sentimentais, fanáticos e ignorantes quanto à ciência”. Hoje em dia temos muitas evidências que mostram que a alimentação vegetariana é, de facto, segura e saudável.

Ao longo da história, a carne tem tido um complexo efeito cultural, ambiental e nutricional nos humanos. Tem sido usada durante milhares de anos como uma forma de separar grupos culturais, de exibir a riqueza e até mesmo de incitar ao racismo. Temos causado danos ambientais em todas as fases da nossa relação com animais explorados. A domesticação precoce de animais causou desflorestação e excesso de pastos, mas a nossa dependência actual da pecuária levou os danos ambientais ao seu extremo. Os países ocidentais comem mais carne agora do que em qualquer outra altura da História. Até há algumas centenas de anos atrás, o consumo de carne era extremamente limitado, e a maioria de nós sobrevivia com uma alimentação principalmente à base de vegetais.

O que toda esta informação mostra é que está na hora de questionarmos o lugar da carne na nossa sociedade. Os defensores dos direitos dos animais já se debruçam muito sobre esta temática, e esta visão geral da História pode fornecer mais argumentos para juntarmos a esta luta.

Artigo traduzido por Daniela Pereira.

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