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Citador Vegetariano

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Uma compilação de citações e pensamentos sobre vegetarianismo e respeito pelos animais ao longo dos tempos

Associação Vegetariana Portuguesa, 2015Nota: Nem todos os autores das citações foram vegetarianos. A linguagem poderá conter algumas expressões aos nossos olhos desadequadas (e.g. “animais inferiores”), no entanto, deverá ter-se em conta a época em que foram escritas. Notámos que muitas compilações de citações sobre vegetarianismo e direitos dos animais que há na internet (a até em alguns livros) contêm citações que não são, na verdade, da autoria das figuras históricas a que são atribuídas (como as famosas citações atribuídas a Leonardo da Vinci e a Abraham Lincoln). Tendo isso em consideração, procurámos incluir aqui apenas aquelas cuja autenticidade conseguimos verificar.



 
 “…antigamente
os sacrifícios se faziam sem efusão de sangue, pela sábia instituição de Numa,
que lhes advertia e pregava que esse deus dos confins devia ser puro e limpo de
sangue e de crime, como testemunho da justiça e guarda da paz.”

Plutarco, Vida de Numa Pompílio, (XXVIII) 
“É que varões não medíocres, mas insignes e doutos, Pitágoras e Empédocles, declararam que só existe uma condição jurídica para todos os seres animados e proclamaram que penas inexpiáveis impendem sobre aqueles que tenham maltratado um animal.”
Cícero (106-43 a.C.), Tratado da República, III, 3.19 (tradução de Francisco de Oliveira, Circulo de Leitores/Temas e Debates, 2008).

 

 

“…abstendo-se
esses povos da carne como se fosse impiedoso comê-la ou com o se o sangue
maculasse os altares dos deuses; em substituição a isto, os homens que, como
nós, existiam então viviam o que é chamado de “vida órfica“,
sustentando-se totalmente de alimento de seres inanimados e abstendo- se
totalmente de alimento oriundo de seres animados.”

Platão (ca. 429-347 a.C.), “As Leis”. Foto: Marie-Lan Lguyen.

“Alguém,
no entanto, talvez possa dizer que nós também tiramos algo às plantas [quando
as comemos e usamos em sacrifícios aos Deuses]. Mas a ablação não é parecida,
uma vez que não tiramos isto daqueles que não têm vontade que o façamos. Pois,
se negligenciássemos colhe-los, elas deixariam os seus frutos caírem espontaneamente.
A colheita dos frutos, também não é acompanhada pela destruição das plantas,
como acontece quando os animais perdem o seu princípio vital.”

Teofrasto (ca. 371 a.C.-ca.287 a.C.)
provavelmente em “Sobre a piedade”,
conforme citado por Porfírio na sua obra “Da
Abstinência do Alimento Animal”
, II, 13. A partir da tradução de Thomas
Taylor, na edição de Esmé Wynne-Tyson.

 
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Ó mortais, parai de poluir os vossos corpos com alimentos
abomináveis! Há searas, há os frutos que vergam os ramos
com o seu peso, e os cachos de uvas inchados nas vinhas;
há vegetais deliciosos e aqueles que podem ficar agradáveis
e mais tenros pelo fogo. […]
A terra pródiga dá riquezas e fartura de alimentos gentis,
e oferece iguarias sem necessitar de matança e de sangue. […]
Oh! que medonho crime, enterrar vísceras nas vísceras,
engordar o sôfrego corpo amontoando nele outro corpo,
um ser vivo viver à custa da morte de outro ser vivo!
E entre tantos recursos que a terra, melhor das mães,
produz, nada te contenta senão mastigar com cruel dente
feridas horríveis e trazer de volta os hábitos dos Ciclopes?
Nem poderias acalmar a fome da tua voraz e imoral
pança, sem que destruas a vida de uma outra criatura?
– Ovídio (43 a.C- 17/18 d.C), Metamorfoses, Livro XV, O discurso de Pitágoras. (Tradução de Paulo Farmhouse Alberto, Livros Cotovia, 2007, pp. 366-367.)


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“Vê
bem a mistura de iguarias que o nosso luxo gastronómico – e para tal devasta a
terra e o mar ! – consegue fazer passar por um só esófago!”

Lúcio Aneu Séneca (ca.4 a.C. – 65 d.C.),
Cartas a Lucílio”, 95.19. (tradução
de J. A. Segurado Campos, Fundação Calouste Gulbenkian, 2009).

“Sótion
costumava explicar as razões por que Pitágoras, e tarde Sêxtio, se recusavam a
comer carne de animais. As razões de um de outro eram distintas, mas ambas
dignas de admiração. Sêxtio entendia que o homem dispõe de alimentos
suficientes sem precisar de causar mortes; além disso, quando se cria o prazer
de dilacerar a carne dos animais, facilmente a crueldade se torna num hábito. […]
Pitágoras, por seu lado, afirmava o parentesco absoluto entre todos os seres
vivos, a ligação entre todas as almas e a respectiva transmigração de corpo para
corpo.”


Lúcio Aneu Séneca, “Cartas a Lucílio”, 108.17-19.


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“Aos homens,
imperador, a terra fez crescer tudo. E os que desejam viver em paz com os
animais não necessitam nada, pois há frutos da terra, para nutrição de seus
filhos, que são colhidos e outros que são obtidos com o arado, de acordo com as
estações. Mas os homens, como se não tivessem ouvido a terra, afinaram sua faca
contra os animais em busca de vestimentas e alimentos.”- Apolónio de Tiana (ca. 15- ca.100),
segundo Filóstrato, na “Vida de Apolónio de Tiana”, VIII, 7, 4 (passagem
no artigo “O vegetarianismo do mago Apolônio
de Tiana como exercício espiritual
, de Semíramis Corsi Silva, no “Philía: Jornal Informativo de História
Antiga
”, Nº 46).


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“Perguntas-me
por que motivos Pitágoras se absteve de se alimentar com a carne dos animais.
Pela minha parte, pasmo de que espécie de sentimento, espírito ou razão estava
possuído aquele que primeiro poluiu a sua boca com sangue e consentiu que os
seus lábios tocassem a carne dum ser assassinado, que espalhou sobre a sua mesa
os membros despedaçados de corpos mortos e pediu como alimento quotidiano e
prato delicado o que há pouco era um ser dotado de movimento, de percepção e de
voz?…
Que luta pela existência ou que excitada loucura incitou a ensopar em sangue as tuas mãos, a ti que tens sempre abundância de todas as coisas necessárias para viveres? Porque desmentes a terra como se ela fosse incapaz de te alimentar e nutrir? Porque atormentas Ceres que humaniza, e desonras as doces e suaves dádivas de Baco, como se não tivesses nelas o bastante? Não te envergonhas de misturar o assassínio e o sangue aos seus frutos benéficos?”
Plutarco (ca. 46-120), “Moralia”, Sobre o consumo de carne, tradução de Jaime de Magalhães Lima.


“Uma
aranha toda se ufana de ter capturado uma mosca; aquele homem, uma lebre;
outro, um robalo à linha; outro, um porco-bravo na ratoeira; aqueles, ursos;
aqueloutro, sármatas. Ora toda essa populaça, bem vistas as coisas, em que
difere dos salteadores?”

Marco Aurélio (121-180), Pensamentos, X, 10. (Tradução de João
Maia, Biblioteca Editores Independentes, 2008, p. 121.)

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“Deixo de insistir no facto de que, se nos
pusermos na dependência do argumento da necessidade ou da utilidade (do
carnivorismo), não podemos deixar de admitir por implicação que nós mesmos
fomos criados só por causa de certos animais destruidores, como os crocodilos,
as serpentes e outros monstros, porque não recebemos deles o menor benefício.
Pelo contrário, são eles que apanham, destroem e devoram os homens que
encontram – fazendo o que não procedem de modo algum menos cruelmente do que
nós. De resto, eles são assim selvagens por necessidade e fome; e nós por
insolente lascívia e luxuriosos prazeres, divertindo-nos, como usamos no circo
e nos morticínios da caça. Em tais acções fortificamos em nós uma natureza
bárbara e brutal que torna os homens insensíveis ao sentimento da piedade e
compaixão. Aqueles que primeiro perpetraram essas iniquidades fatalmente
entorpeceram a parte mais importante da alma. Por isso é que os discípulos de
Pitágoras consideram a bondade e a graça com os animais inferiores um exercício
de filantropia e graça.”

Porfírio (ca. 234-ca.304/309), Da Abstinência do Alimento Animal, (tradução de Jaime de Magalhães Lima)


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“Sairá
um grande ruído das sepulturas dos que tiveram má e violenta morte.”

(Da
boca do homem que é sepultura)

Leonardo da Vinci (1452-1519), Bestiário, Fábulas e outros escritos (Tradução
de José Colaço Barreiros, Biblioteca Editores Independentes, 2007), p. 82.

“Estes
não terão fim na sua malignidade; pelos ferozes membros destes cairão por terra
grande parte das árvores das grandes florestas do universo; e como serão
nutridos, o alimento dos seus desejos será dar morte e ânsia e fadigas e
terrores e fuga a toda e qualquer coisa animada. E pela sua desmedida soberba
les quererão erguer-se até ao céu, mas o peso enorme dos seus braços
mantê-los-á em baixo. Nada ficará sobre a terra, ou sob a terra e a água, que não
seja perseguida, retirada ou estragada; e a de um país levada para outro; e o
corpo destes se fará sepultura e trânsito de todos os seus já mortos corpos
animados.

Ó
mundo, porque não te abres? E precipita nas altas covas dos teus grandes
abismos e grutas e não mostres mais ao céu tão impiedoso e cruel monstro!”

(Da
crueldade do homem)
Leonardo da Vinci, Ibid., pp. 83-84.


“Tinha grande apreço por toda a espécie de animais, que tratava com grande amor e paciência. Quando, por exemplo, passava em sítios onde vendiam pássaros, tirava-os muitas vezes da gaiola com as suas mãos e, tendo pago o preço pedido pelo vendedor, deixava-os voar, restituindo-lhes assim a liberdade perdida.”
Giorgio Vasari (1511-1574), sobre Leonardo da Vinci, em “As Vidas dos Artistas” (tradução de
Victor Hugo Antunes em “Leonardo da
Vinci: O voo da mente
” de Charles Nicholl, Bertrand Editora, 2006, p. 62).“A carne humana e a carne dos animais são idênticas e o seu sangue carmesim é também o mesmo.”
Kabīr (ca. 1440- ca. 1518) (A Translation of Kabīr’s Complete Bījak, trans. Prem Chand, Calcutta, 1911)

“Com
esta assídua perseguição às feras de que se alimentam com gosto, acabam por
degenerar em feras embora julguem levar uma vida régia.”-
Erasmo de Roterdão (1466-1536), “Elogio da Loucura” (1511), tradução de
Álvaro Ribeiro, Guimarães Editores.“Os
seus sacrifícios não são cruentos, pois pensam que Deus não se compraz no
sangue e na morte, pois deu a vida às criaturas para que a vivessem.”-
Thomas More (1478-1535),“Utopia” (1516),
Tradução de Maria Isabel Gonçalves Tomás, Publicações Europa-América.

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“Quanto
a mim, nunca pude sequer ver perseguirem e matarem um inocente animal, sem
defesa, e do qual nada temos a recear, como é o caso da caça ao veado, o qual,
quando sem fôlego e sem forças, e sem mais possibilidade de fuga, se rende e
como que implora o nosso perdão com lágrimas nos olhos: “gemendo, ensangüentado,
pede misericórdia” [Virgílio]. Um tal espetáculo sempre me pareceu muito
desagradável. Se pego algum animal vivo, dou-lhe liberdade. O mesmo fazia
Pitágoras que comprava peixes e pássaros para os soltar: “Foi, creio, como o
sangue dos animais que o ferro se tingiu pela primeira vez.” [Ovídio]. Os que
são sanguinários com os bichos, revelam uma natureza propensa á crueldade.
Quando se acostumaram em Roma com os espetáculos de matanças de animais,
passaram aos homens e aos gladiadores.”

Michel de Montaigne (1533-1592),“Ensaios”,
Livro Segundo, capítulo XI, “Da crueldade”,
tradução de Sérgio Milliet, São Paulo, Nova Cultural, 1991.

“Essa
falha que impede nossa comunicação recíproca tanto pode ser atribuída a nós
como a eles, que consideramos inferiores. Está ainda por estabelecer a quem
cabe a culpa de não nos entendermos, pois se não penetramos o pensamento dos
animais, eles tampouco penetram os nossos e podem assim nos achar tão irracionais
quanto nós os achamos. […]
Disse tudo isso para estabelecer a semelhança
que há entre os seres da criação e recolocarmo-nos entre as demais criaturas.
Não estamos acima nem abaixo delas. Tudo o que existe sob os céus esta sujeito
á mesma lei e às mesmas condições: “tudo se prende ao destino” [Lucrécio]. Há
diferenças, ordens e graus diversos, mas de um modo geral os caracteres
essenciais são os mesmos: “cada coisa viva tem a sua organização própria, e
todas conservam as diferenças estabelecidas pela natureza” [Lucrécio]. É
preciso limitar o homem e coloca-lo entre as barreiras dessa ordem universal.” […]
Eis por que eu não digo que não haja razão para
pensar que os animais fazem instintivamente e determinadamente o que nós mesmos
fazemos por vontade e intervenção própria. Os mesmos resultados decorrem de
idênticas faculdades, e quanto mais ricos os resultados mais ricas as
faculdades, o que nos leva a concluir que raciocínios e meios idênticos aos
nossos atos acompanham os atos dos animais, os quais têm, ocasionalmente,
faculdades superiores às nossas. Por que imaginar que neles a ação é maquinal e
em nós não? […] Os habitantes da Trácia, quando têm que atravessar um rio
gelado, servem-se de uma raposa que caminha á sua frente. Vê-se o animal
aproximar o ouvido do gelo, até toca-lo para verificar se a água corre perto ou
longe. Verificada a espessura do gelo, avança ou recua. Não somos levados a
pensar que em seu cérebro se observa um processo racional semelhante ao que se
processaria no nosso? […] Atribuir o acto da raposa á acuidade de ouvido, sem
reflexão de sua parte, é uma quimera que o nosso espírito não pode aceitar.
Igual opinião devem merecer todas as invenções e astúcias a que recorrem os
bichos para se verem livres da nossa perseguição. Se em prol da nossa
superioridade, quisermos argumentar com o facto de os aprisionarmos,
emprega-los á vontade a nosso serviço, direi que o mesmo podemos fazer com
outros homens.”

Michel de Montaigne,“Ensaios”,
Livro Segundo, capítulo XII, “Apologia de
Raymond Sebond

“Vi
outrora homens vindos por mar de longínquos países. Como não compreendíamos sua
língua e seus costumes, suas atitudes e suas vestimentas não se assemelhavam
aos nossos, consideramo-los selvagens e estúpidos. Atribuímos à sua estupidez o
fato de não falarem francês e se calarem, de ignorarem o beija-mão, nossas
reverências requintadas, nossas maneiras, tudo isso a que, sob pena de
incorreção, desejaríamos se moldasse toda a humanidade. Condenamos tudo o que
nos parece estranho e também o que não compreendemos. E por esse prisma
julgamos os animais.”


Michel de Montaigne, Ibid.


 “Rei
Henrique
[…]
Tu nunca os prejudicaste, nem a ninguém causaste prejuízo; mas assim como o magarefe
tira o vitelo do estábulo, amarra o infeliz, e lhe bate, quando intenta fugir,
ao ser levado ao sangrento matadouro, assim, sem remorsos, o trouxeram eles
aqui. E assim como a vaca corre, amorosa, para um lado e para o outro, olhando
para o caminho por onde o seu inocente filho foi, e nada pode senão mugir pela
perda do seu querido, assim eu também deploro a situação do bom Glocester com
as tristes lágrimas da desesperança; e com os olhos marejados sigo-o com a
vista, mas impossibilitado de fazer-lhe bem – tão poderosos são os seus
encarniçados inimigos.”

William Shakespeare (1564-1616), “O Rei Henrique VI”, acto terceiro, (tradução
de Henrique Braga, Porto: Lello & Irmão, 1955). 

 

“O
Duque
Pois
bem, e se fôssemos matar alguma caça?Contudo,
tenho pena de ver esses inocentes
Malhados,
esses burgueses das cidades florestais,No
seu próprio terreno, assassinados por setas,
Que
sujam com sangue os seus bonitos flancos arredondados.”-
William Shakespeare, “Como lhe aprouver”, acto segundo,
(tradução de Henrique Braga, Porto: Lello & Irmão, 1955).“Tudo
o que nos é necessário como alimento, tudo o que deve refrescar-nos, e dar-nos
prazer, nos é oferecido abundantemente nesse armazém inesgotável do reino
vegetal.”

John Ray (1627-1705), em “Acetaria” (1699) de John Evelyn (tradução
em O Vegetariano, vol. I, p. 134).


 
“Priva-te sempre daqueles alimentos que não possam ser obtidos sem violência e opressão.”
Thomas Tryon (1634-1703), “Wisdom’s Dictates” (1691)“Muitas vezes pensei que, se não fosse pela tirania que o costume exerce em nós, os homens duma natureza medianamente boa nunca se reconciliariam com a acção de matarem tantos animais para seu sustento quotidiano, enquanto a liberalidade da terra tão abundantemente lhes faculta as delicadas variedades de vegetais.”
Bernard de Mandeville (1670-1733), The Fable of the Bees, 1714, (tradução de Jaime de Magalhães Lima)

“Não
consigo encontrar nenhuma diferença, com base apenas na razão e na equidade,
entre a alimentação com carne humana e a alimentação com carne animal,
excepto o costume e o exemplo.”

George Cheyne (1671-1743), Essay
on Regimen
” (1740).

 “As lagostas assadas vivas, os porcos fustigados até à morte, as aves
amanhadas, são testemunho da nossa luxúria. Aqueles que, na frase de Séneca,
repartem a vida entre uma consciência ambiciosa e um estômago enauseado, têm a
justa recompensa da sua gula nas doenças que ela acarreta. Porque os selvagens
humanos, como os outros animais bravios, encontram ratoeiras e venenos nas
provisões da vida e enganados pelo apetite correm à própria destruição. Não
conheço nada mais repelente do que o aspecto duma das suas cozinhas coberta de
sangue onde se ouvem os gritos dos seres que expiram em torturas. Dá-nos a
imagem da caverna dum gigante nos romances, juncada de cabeças dispersas e
membros lacerados daqueles que a sua crueldade chacinou.”
Alexander Pope (1688-1744), ”The Guardian”, No.
61, Thursday, 1713.
(tradução
de Jaime de Magalhães Lima)

 

“A Franga: Que horrendos patifes! Estou
prestes a desfalecer. Como? Furarem-me os olhos! Cortarem-me o pescoço!
Assarem-me e comerem-me! Esses celerados não têm um pingo de remorsos?
O Frango: Não, minha amiga; os dois abades de
que te falei diziam que os homens nunca têm remorsos das coisas que têm o
hábito de fazer.
A Franga: A detestável corja! Aposto que
quando nos devoram ainda se põem a rir e a contar ditos anedóticos, como se
nada fosse.”
Voltaire
(1694-1778), “Diálogo da frango e da
franga
” (1763), tradução de Susana Pires, Estrofes & Versos, 2010.


 
“Que néscio é afirmar que os animais são máquinas
privados do conhecimento e do sentimento, agindo sempre de igual modo, e que não
aprendem nada, não se aperfeiçoam, etc.!
Pode lá ser!… Então esse pardalico que
constrói o ninho em semi-círculo quando o prende a uma parede, que o constrói
num quarto de círculo quando o faz num ângulo e em círculo num ramo de árvore –
faz tudo de igual modo? O cão de caça que ensinaste a obedecer-te durante três
meses, não estará a saber mais ao cabo desse período do que sabia no inicio das
lições? O canário a quem tentas ensinar uma melodia, repete-a logo no mesmo
instante, ou não levarás um certo tempo a fazer-lha decorar? E não reparaste
como se engana, com frequência, e vai corrigindo depois?”
Voltaire, “Dicionário filosófico
(1764), tradução de João Lopes Alves e Bruno da Ponte, Presença, 1966.

“Qual é o bárbaro que poderia
assar um cordeiro, se esse cordeiro nos conjurasse por um discurso comovedor a
que não fôssemos ao mesmo tempo assassinos e antropófagos?”- Voltaire,
Dicionário filosófico”, tradução de Jaime
de Magalhães Lima.“Ah! Foi porque os homens, infelizmente, acabaram por adquirir o hábito de nos comer, em vez de conversar e de se instruir connosco. Bárbaros! Não deviam estar convencidos de que, uma vez que temos os mesmos órgãos que eles, os mesmos sentimentos, as mesmas necessidades, os mesmos desejos, tínhamos aquilo a que se chama uma alma, assim como eles; que éramos seus irmãos […]? […]Os homens alimentados de carne animal, e cuja sede é saciada por bebidas fortes, têm todos o sangue azedo e adusto que os deixa loucos de cem maneiras diferentes. A sua principal demência é o furor de derramar o sangue dos seus próprios irmãos, e devastar as planícies férteis para reinar sobre cemitérios.”
Voltaire, “A Princesa da Babilônia” (1767), Tradução de Renata Cordeiro, Landy Editora, 2006, pp. 42-43, 45.“[…] a sala era asseada, cómoda, e bem ornada; os convivas alegres; o ouro e a prata brilhavam sobre os aparadores; o espírito, os bons pensamentos, a alegria, a feliz concepção, e a graça animavam a conversação; porém nas cozinhas corriam o sangue e a gordura; as peles dos quadrúpedes, as penas das aves, e as suas entranhas confusamente amontoadas oprimiam o espírito, e espalhavam a infecção.”
Voltaire, “Cartas Indianas ou correspondência entre Amabed, Adaté, e o grão-brama Shastasid” (1769), Lisboa, 1835, p. 88.


“…
Despojar os animais das suas vidas, de forma a transforma-los em comida,
contraria imensamente os princípios de benevolência e compaixão.”- David Hartley (1705-1757), “Observations
on man
(1749)“Os animais que comeis não são os que comem os outros; vós não comeis esses animais carnívoros, vós os imitais; só tendes fome de bichos inocentes que não fazem mal a ninguém, que se apegam a vós, que vos servem e que, devorais como paga dos seus serviços.”- Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), citando livremente Plutarco, (“Emílio”, tradução de Sérgio Milliet, São Paulo, 1968).

 
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“Mas no entanto (consegues acreditar?) eu tenho visto o próprio homem que se gaba da sua ternura, a devorar de uma só vez a carne de seis animais diferentes num fricassé. Estranha contradição de conduta! Têm piedade, e comem os objectos da sua compaixão!”
Oliver Goldsmith (1728-1774),“Letters from a Citizen of the World to His Friends in the East

“Que vezes, à sombra daqueles rochedos, participei com elas de vossos manjares campestres, que não custaram a vida a animal algum!”
Jacques-Henri Bernardim de Saint-Pierre (1737-1814), “Paulo e Virgínia”, tradução de Bocage

“A ovelha não foi mais “criada” para o homem, do que o homem foi para o tigre.”
Joseph Ritson (1752-1803), An essay on abstinence from animal food, as a moral duty (1802), edited by Sir Richard Phillips.

“Todo o alimento são é colhido sem rede nem armadilha.”
William Blake (1757-1827), “A União do céu e do inferno”, tradução de João Ferreira Duarte, Relógio d’Água, 1991, p. 26.

“Ele acreditava ser um pecado matar qualquer criatura para alimento, e pensava que tudo o que era necessário para o sustento humano era produzido pelo solo.”
– Numa biografia de Johnny Appleseed (1774-1845) escrita por W. D. Haley (1871)


“Quem pode contestar a inumanidade do desporto da caça – de perseguir uma pobre criatura indefesa por mero divertimento, até esta ficar exausta de terror e fatiga, e aí fazer com que ela seja rasgada aos bocados por um grupo de cães? De que tipo de instrução podem os homens, e até as mulheres, absorver princípios como estes? Como é possível que o possam justificar? E em que pode o seu prazer nisso consistir? Não será somente na agonia que produzem no animal? Eles irão alegar que não, e tentarão fazer-nos acreditar no mesmo – que é meramente na perseguição. Mas qual é o objectivo da perseguição deles? Haverá outro para além de atormentar e destruir?”
Lewis Gompertz (1779-1861),“Moral Inquiries on the Situation of Man and of Brutes” (1824), tradução: Nuno Metello (AVP).

 
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“Minha mãe estava convencida, assim como foi sempre a minha convicção, de que matar os animais para nos sustentarmos com a sua carne e o seu sangue é uma das mais deploráveis e mais vergonhosas enfermidades da condição humana; que é uma dessas maldições lançadas sobre o homem pelo endurecimento da sua própria perversidade. Ela acreditava, assim como eu, que esses hábitos endureciam o coração… essas imolações, esses apetites de sangue, essa vista de carnes palpitantes, só servem para tornar o coração mais feroz. Ela julgava, assim como eu, que esse sustento mais suculento e mais energético na aparência, contém em si princípios irritantes e pútridos que agitam o sangue e abreviam os dias do homem. Ela citava, como prova das suas afirmações, os povos da India… as raças fortes e sadias dos povos pastores… e mesmo as populações trabalhadoras dos campos que não comem carne dez meses na vida.
Um dia minha mãe, indo à cidade, levou-me ao pátio de um matadouro. Vi homens com os braços nus matando violentamente bois e carneiros, despedaçando-lhes os membros ainda palpitantes. Regatos de sangue fumegavam aqui e ali pelo pavimento: uma profunda piedade, misturada de horror, se apoderou de mim e pedi para sair imediatamente dali.
A ideia destas horríveis cenas e degolamentos, preliminares obrigados de um desses pratos de carne que eu via servir na mesa, fez-me repugnar o sustento animal e ter horror aos carniceiros… foi-me sempre difícil deixar de ver num carniceiro alguma coisa do carrasco.”
Alphonse de Lamartine (1790-1869), “Les Confidences”, 1854 (tradução em O Vegetariano, volume I, p. 153.)


“As regiões mais férteis do globo habitável
são agora cultivadas pelo homem para alimentar animais, a um atraso e
desperdício de alimentos absolutamente impossíveis de calcular.”

Percy Bysshe Shelley (1792-1822), “A Vindication of Natural Diet” (1813)“A minha alimentação não é a dos homens. Não tenho
de matar cordeiros e cabras para saciar o meu apetite; as glandes e as bagas
bastam-me.”- Mary
Shelley
(1797-1851), “Frankenstein
(1818), capítulo XVII (tradução de Mário Martins de Carvalho, Editorial Sol 90,
2006).

 

 
“Quanto tempo levará após termos começado a olhar
com indiferença para a dor e para o sofrimento nos animais, para começarmos a
ser menos afectados do que éramos antes pelo sofrimento humano?”

Dr. William A. Alcott (1798-1859), “Vegetable Diet” (1859), tradução: Nuno Metello.“Em especial, aqueles que apreendem a
sabedoria mais profunda e conservam durante a sua vida o gosto por elegantes
estudos e demandas devem abster-se da carne, venerando a justiça pela qual os
animais clamam às mãos do homem e não os massacrando por causa de comida ou
lucro.”

Amos
Bronson Alcott
(1799-1888), Tablets
(1879), tradução: Ricardo Morais-Pequeno (AVP).
“Nas relações dos humanos com os animais, com as flores, com os objectos da Criação, existe toda uma grande ética que ainda não se vislumbra bem, mas que acabará por despontar à luz do dia e que será o corolário e o complemento da ética humana. […] Sem dúvida que foi preciso primeiro civilizar o homem em relação aos seus companheiros. […] Mas é também preciso civilizar os seres humanos em relação à natureza. Aí, tudo está por fazer.”
Victor Hugo (1802-1885),“Alpes et Pyrénées”, pp. 180-181. (Tradução de Pedro Vidal no “Manifesto dos Animais” de Marc Bekoff).

 

 
 “A fundação para a
verdadeira cultura – um completo civilizar e refinar da humanidade – é
claramente impossível enquanto um sistema organizado de assassinato e de
consumo de cadáveres prevalecer por costume aceite.”
– Georg Friedrich Daumer (1800-1875), (citado por Howard Williams, em “The Ethics
of Diet
), tradução: Nuno Metello.“Mas mesmo aqueles que não tomam parte na matança, pelo contrário, nem sequer a vêem, estão conscientes de que os pratos de carne sobre as suas mesas vêm do matadouro, e que os seus banquetes e o sofrimento dos outros estão intimamente ligados.”
Gustav Struve (1805-1870), “Pflanzenkost, die Grundlage einer Neuen Weltanschauung”, 1869 (citado por Williams, em Ibid.), tradução: Nuno Metello.
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“Talvez eles digam às crianças que elas não devem ser cruéis nem para com os “Animais” nem para com os seres humanos mais fracos que elas. Mas quando a criança entra dentro da cozinha, ela vê Pombos, Galinhas e Gansos chacinados e depenados; quando ela vai para as ruas ela vê animais pendurados com os corpos sujos de sangue, os pés cortados e as cabeças torcidas para trás. Se a criança prosseguir ainda mais, ela chega ao matadouro, no qual inofensivos e úteis seres de todos os tipos estão a ser chacinados ou estrangulados. Não iremos tratar aqui extensamente dos barbarismos ligados à carnificina de animais; mas da mesma maneira que alguns humanos abusam dos seus poderes superiores em relação às outras espécies, geralmente também fazem com que a sua tirania seja sentida pelos seres humanos mais fracos que estão em seu poder.
Qual é a utilidade de toda a conversa bonita sobre moralidade, em contraste com actos de barbarismo e de imoralidade que lhes são mostrados por todos os lados?”
Gustav Struve (1805-1870), “Das Seelenleben; oder die Naturgeschichte des Menschen”, 1869 (citado por Williams, em Ibid.), tradução: Nuno Metello.

“Diz-me, conseguias, com as tuas próprias mãos, matar hoje um doce Cordeiro, uma delicada Pomba, com quem tinhas talvez estado a brincar ontem? Respondes – Não? Não te atreves a dizer que conseguias. Se respondesses sim, irias, de facto, desvendar um coração duro. Mas porque não conseguias? Porque é que te causou angústia a visão de um animal indefeso conduzido para o abate? Porque sentiste, no mais intimo da tua alma, que é errado, que é injusto matar um ser indefeso e inocente!”
Gustav Struve, Mandaras’ Wanderungen, 1845 (citado por Williams, em Ibid.), tradução: Ricardo Morais-Pequeno.

“Tal como, nos nossos dias, expor crianças ao perigo, os combates de gladiadores, a tortura de prisioneiros, e outras atrocidades são consideradas escandalosas e vergonhosas, embora nos tempos remotos se acreditasse que fossem bastante justificáveis e correctas, também no futuro o assassinato de animais, para se alimentar dos seus corpos, será declarado imoral e indefensável.”
Wilhelm Zimmermann, “The Way to Paradise” (citado por Williams, em Ibid.), tradução: Nuno Metello.

“A forma como uma nação, na sua totalidade trata as outras espécies, é uma das principais formas de avaliar a sua civilização”
David Friedrich Strauss (1808-1874) (citado por Williams, em Ibid.)


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“Acabaram
de jantar e, por muito escrupulosamente que o matadouro esteja oculto na
graciosa distância dos quilómetros, há uma cumplicidade.”
Ralph Waldo Emerson (1803-1882), “The Conduct of Life”, (tradução
de Pedro Vidal, no “Manifesto dos Animais” de Marc Bekoff).

“Não
tenho dúvidas de que faz parte do destino da raça humana, no seu processo de
evolução gradual, deixar de comer animais, tal como as tribos selvagens deixaram
de se comer umas às outras quando entraram em contacto com os mais civilizados.”

Henry David Thoreau (1817-1862),“Walden”, capítulo
11.

“Sem dúvida o homem que matou pela primeira vez um boi foi tido como assassino; talvez tenha sido enforcado; se houvesse sido julgado por bois, sem dúvida teria sofrido essa pena, por certo merecida, se qu