A Maior Casa de Leilões de pele do mundo encerrará em breve

A maior casa de leilões de pele do mundo encerrará em breve

A casa Kopegnhagenn Fur, a maior leiloeira de peles do mundo, fechará nos próximos dois, três anos, como reacção ao abate em massa de martas (visons) na Dinamarca. 

 

World's Largest Fur Auction House to Close

Kopenhagen Fur, Dinamarca, vai fechar as suas portas. | Edoardo Coaghi / Unsplash Share

 

A Casa Kopenhagen Fur, na Dinamarca, que vendeu cerca de 24,8 milhões de peles de vison entre 2018 e 2019, bem como quantidades significativas de peles de raposa, chinchila e ovelha caracul, deixará de existir nos próximos dois, três anos. Numa ação que pode assinalar o princípio do fim deste mercado, a maior casa de leilões de peles do mundo está a preparar-se para encerrar definitivamente as portas. 

As notícias do seu encerramento decorrem da ordem do governo dinamarquês para proceder ao abate em massa das martas.

 

Porque é que a Dinamarca está a abater martas?

A Dinamarca é o maior produtor de visons no mundo. Contudo, para a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, os 15 milhões de martas que se encontram nas propriedades privadas que as ‘produzem’ tornaram-se um risco de saúde pública para o país. 

A ordem do governo foi uma reação aos relatos sobre uma mutação do COVID-19, que terá passado destes animais para os humanos. Sabe-se da existência de 12 pessoas que estarão infetadas com esta forma mutante do vírus, denominada Cluster 5.

Agricultores de todo mundo revelaram a existência de casos de coronavírus em milhares de martas, ao mesmo tempo que foram reportadas diversas mutações no vírus. No entanto, para os cientistas, o Cluster 5 é particularmente preocupante, dado o respetivo impacto na proteína spike, o alvo de algumas vacinas que estão atualmente em desenvolvimento.

 

Um relatório do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), divulgado horas antes do anúncio Kopenhagen Fur, provocou ainda mais apreensão, ao referir que a evolução do vírus poderá prejudicar a eficácia das futuras vacinas contra o COVID-19.

O governo dinamarquês terá admitido que a sua ordem de abate se efetuou sem base legal (o que resultou em protestos políticos). Não obstante, mantém a recomendação para que os produtores procedam aos abates. Que se sucederam. Com efeito, a BBC noticiou o aparecimento de valas comuns cheias de martas sacrificadas na região interior da Dinamarca. 

 

 

Uma imagem com vestuário, diferente, longo, casaco Descrição gerada automaticamente

Será o fim do mercado das peles de vison? | Kopenhagen Fur 

 

 

Será isto o fim do comércio das peles de visons?

A casa Kopenhagen Fur pertence a 1500 produtores dinamarqueses que aí vendem as suas peles. De acordo com a mesma casa, no próximo ano, os leilões que já estão programados serão realizados (com as peles provenientes de ‘criações saudáveis, fora das zonas restritas’), assim como as vendas durante 2022 e 2023. Depois disso, encerrará definitivamente. 

Num comunicado publicado no respetivo sítio, a Associação da Kopenhagen Fur declara: “Infelizmente, a perda da produção dinamarquesa de visons significa que a base da propriedade desaparece. Por conseguinte, a administração da empresa decidiu reduzir gradualmente o tamanho da empresa e encerrar de forma controlada durante um período de 2-3 anos”. 

De acordo com Joanna Swabe, diretora sénior de Relações Públicas da Sociedade Humanitária Internacional [Human Society International], a mutação do COVID-19 e o encerramento da Kopenhagen Fur poderão representar um ponto de inflexão para o mercado de peles da Dinamarca. 

 

  • “[O anúncio da Kopenhagen Fur] pode muito bem assinalar o princípio do fim do mercado de peles”, afirmou a mesma diretora. Acrescentou que “as empresas produtoras de peles não são apenas a causa de um sofrimento animal imenso e desnecessário, também são bombas-relógio para doenças mortais”.

 

Ainda na opinião de Joanna Swabe, os governos devem compensar os produtores pelos abates e, em seguida, acabar com esta indústria para sempre. Na sua perspetiva, “devemos focar-nos no apoio aos produtores e agricultores, para que estes se reconvertam e transfiram para meios de subsistência mais humanos, seguros e economicamente viáveis”. 

 

 

Será ético abater milhões de martas?

Na verdade, muitos ativistas pelos direitos dos animais e contra o uso de peles sempre argumentaram que nunca se observou nada de eticamente aceitável no que à criação de visons concerne. Os surtos de COVID-19, as mutações e os abates subsequentes são uma consequência arrasadora desta prática. 

Os animais são mantidos todos juntos, separados em pequenas gaiolas de arame. De acordo com a Coligação para abolir o comércio de peles [Coalition to Abolish the Fur Trade], isso impede que os animais realizem os seus comportamentos e movimentos naturais. Daqui resultam sintomas de psicose, nomeadamente automutilação e canibalismo. 

As quintas destinadas à exploração de martas também são prejudiciais para o meio ambiente. Criar milhões de animais requer energia, alimento, terra, água, e outros recursos. Segundo a MTT Agrifood Research Finland [Consórcio finlandês para a investigação agropecuária], a pegada de carbono de um vison é a mesma que a de um consumidor médio finlandês. 

 

Joanna Swabe observa que “jamais poderia haver um final feliz para os animais na indústria de peles”.

Se fossem encerradas agora as quintas e se se interrompesse por completo a criação, acabar-se-ia com o sofrimento desnecessário destes animais e com os consequentes danos ao planeta. O que se repercutiria na redução do risco de acontecerem surtos de doenças zoonóticas (enfermidades transmitidas por animais). 

Segundo os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, 75% das novas doenças infeciosas emergentes derivam de animais. Swabe afirma: “Não nos podemos sentar e ficar à espera que surja a próxima pandemia [nas quintas de produção de visons]”. 

 

Benny Andersson, CEO da Djurens Rätt – Organização Sueca pelos direitos dos animais – concorda com Joanna Swabe. Conforme afirmou ao The Guardian: “Este é um sector minúsculo. Tendo em conta o risco em comprometer uma vacina, é fácil perceber que poderemos viver sem ele. Deveríamos encerrar todas as propriedades de criação de martas e abater todos os animais. Estes animais estão doentes e não estão a ser tratados, o que significa que temos mais um problema em relação ao bem-estar das martas.

 

A Associação da Sociedade Humanitária Médico-Veterinária [HSVMA – Human Society Veterinary Medical Association] também apoia as opiniões de Joanna Swabe e Benny Andersson. Num comunicado publicado aqui, é apontado que a mutação sem o abate seria mau para os humanos e para as martas. 

No mesmo comunicado, é declarado “que as martas experienciam dificuldades respiratórias muito graves antes mesmo de serem mortas, dadas as condições de vida artificiais a que são submetidas”.

 

Ainda antes do COVID-19, a moda já estava a voltar as costas às peles

Outra prova de que o tempo da indústria de peles terá chegado ao fim, é o facto de, nos últimos anos, muitas das grandes casas de moda terem proibido o uso de peles. Gucci, Chanel, Versace, Armani e Prada são algumas das principais empresas de moda que disseram “chega!” à indústria de peles. 

Em 2018, Donatella Versace, a líder da Versace afirmou: “Peles? Estou fora disso. Eu não quero matar animais para fazer moda. Não me parece correto”. 

Também em 2018, Kim Kardashian [empresária e socialite norte-americana] anunciou que os seus casacos de peles eram todos falsos. Já no início de 2020, a editora-chefe da Vogue, Anna Wintour, vestiu uma pele de origem sustentável sem pele de animal, assinada por Stella McCartney. Até a Rainha Isabel II deixou de usar peles. 

O encerramento da Casa Kopenhagen Fur é só mais um prego para o caixão de uma indústria que já está moribunda. Como refere Swabe: “Está na hora de desligar as máquinas de suporte de vida a este mercado arcaico”.

 

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Adaptado do LiveKindly

Tradução por Ana Luísa Pereira

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